Porque no sertão me sinto mais feminista

Aqui ninguém tem tempo para cassar carteirinha de outras companheiras

A mulherada porreta dos movimentos de mulheres de Afogados da Ingazeira — PE

Se você gosta de se questionar e viver em insegurança com suas convicções, há poucas campos tão férteis para isso quanto o feminismo. Assumir-se feminista é muito mais difícil do que ser feminista. Dependendo do ambiente em que você está inserida, isso pode significar uma série de questionamentos sobre qual deve ser seu “código” de luta e de valores. Vou dar um exemplo: demonstrar alguma opinião em relação à regularização da prostituição ou da inclusão de homens no movimento enquanto feminista de esquerda. Qualquer posição que você adote em algum desses temas a põe em um risco bem grande de ser tachada ou se sentir mal por isso.

Eu nunca tive muito saco pro feminismo acadêmico, até porque nunca tive muito saco pra academia de maneira geral (apesar de agora estar fazendo mestrado e conhecendo mais esse mundo). Quando me perguntam qual a “minha corrente”, eu fico com medo de me localizar e depois alguém vir tirar minha carteirinha. As tretas de vertentes cansam minha beleza, apesar de eu aprender muito (principalmente sobre feminismo negro) quando leio textão no Face. Não que eu não goste de treta, mas meu negócio é na rua. Gosto mesmo é de entuchar feminismo nas conversas com meus amigos machistas e o povo da minha família. É o momento “feminismo de guerrilha”: quando a gente tenta desconstruir e apresentar conceitos onde não é chamada, mas sabe que é necessário.

O sertão entra aqui como parte de minha história. Minha mãe nasceu numa cidade do sertão nordestino (Brotas de Macaúbas-BA, perto da Chapada Diamantina — anotem aí porque é lindo demais e a galera é massa) e foi com a minha família que descobri o que é empoderamento feminino. Minha bisavó, dona Madalena, sustentou os muitos filhos montada no lombo do burro pra vender os produtos da roça. Enquanto rodava por todos os povoados da região, também cuidava do marido, que ficou 25 acamado depois de um AVC. Isso mesmo depois de ter apanhado durante anos e anos dele. Tudo isso nunca esteve registrado em lugar nenhum, mas é repassada pela tradição oral da família e pelas inúmeras histórias contadas pela minha avó, tias e tios.

Minha vó momentos antes de me ensinar a debulhar feijão

Eu, menina urbana de classe média alta nascida em São Pulo, nunca vou saber os percalços pelos quais Madalena passou, mas aprendo com a história dela e de suas descendentes sobre a força que a mulher pode ter. Minha família se constituiu pela força do feminino, da cooperação e do cuidado umas com as outras. Essa é a história de muitas e muitas famílias sertanejas que fazem da sobrevivência as suas histórias de luta.

E o que isso tem a ver com os textões feministas? Conhecer e fazer parte dessa realidade descoloniza o pensamento. Na minha bolha uspiana, por muitas vezes cheguei a acreditar que as feministas iluminadas precisavam chegar aos rincões do Brasil e levar a palavra sagrada do feminismo. Com todas nossas teorias, conseguiriam libertar as mulheres de seus lugares de opressão e mostrar a elas o caminha certo (tipo, mostrar pra minha bisavó que ela não tinha que cuidar do marido acamado depois de anos apanhando dele).

Mas não é isso! Todas nós, do lugar de privilégio em que estivermos, precisamos é romper a nossa bolha e reconhecer todas as formas de produzir conhecimento e ter autonomia. Entender que a preocupação em deter conhecimentos acadêmicos irretocáveis sobre relações de gênero não vai nos tornar feministas melhores. Respeitar as subjetividades das mulheres e reconhecer todas as lutas possíveis — inclusive aquelas com cujos preceitos não estamos de acordo.

Necessários banhos de realidade

Vim para o sertão do Pajeú, no Pernambuco, para conhecer políticas públicas de enfrentamento à violência contra mulheres como parte da minha pesquisa de campo para o mestrado. A convivência com os movimentos de mulheres tem sido um aprendizado para mim desde o primeiro momento. Aqui sinto o feminismo hardcore, que busca acima de tudo lidar com a realidade e respeitar as subjetividades. 
 
 Entretanto algumas práticas que conheci aqui seriam facilmente questionadas e problematizadas pelo feminismo acadêmico. Trouxe alguns exemplos que chamaram mais a minha atenção:

— a colaboração com a Igreja
 Existem projetos aqui apoiados e promovidos pelas igrejas católica e evangélica que buscam construir relações de gênero mais justas e combater a violência doméstica. O trunfo deles é justamente conseguir dialogar com mulheres cristãs e trabalhar pela prevenção da violência.
 
 — respeito total à autonomia
 Uma das alternativas encontradas pelo governo do estado para reduzir a subnotificação e a impunidade foi criar um cadastro menos formal dos casos de agressão. Assim, as mulheres que procuram ajuda mas não querem registrar o boletim de ocorrência não deixam de ter seus casos monitorados. Lembrando que muitas mulheres não desejam se separar de seus companheiros ou sair de casa, mas querem de alguma forma mostrar a eles que estão cientes de seus direitos. E tentar convencê-las do contrário pode ser um tiro no pé.
 
 — valorização dos modos de vida tradicionais
 Os projetos que trabalham com mulheres rurais buscam agregar valor às atividades econômicas tradicionalmente ligadas às mulheres do campo, como as hortas de quintal, beneficiamento de frutas e artesanato. Paralelo a isso, elas vão participando de formações sobre gênero, direitos e cidadania, de forma a ampliar seus espaços dentro e fora de casa. Ou seja, busca-se equilibrar a divisão de trabalho valorizando o trabalho tradicionalmente relegado à mulher.

Para quem está aprendendo sobre políticas públicas, esses testemunhos são de encher os olhos. Para construir essas ações, teve sim muita disputa política, roda de conversa e, principalmente, olhares atenciosos à própria realidade. E o melhor de tudo é enxergar no olho de cada uma das mulheres organizadas da região o orgulho de ser feminista e de lutar pela vida de todas nós. A luta pela sobrevivência, contra pobreza e o esquecimento é muito pesada e não pode abrir espaço para as disputas de ego e cassação de carteirinhas.
 
 Estar aqui, em contato com toda essa potência me faz ter muito orgulho da luta feminista e da minha própria raiz sertaneja. Aqui me esqueço das crises porque não “assumo” uma corrente ou porque não consigo seguir nenhuma cartilha à risca. Que tudo bem não conseguir explicar os conceitos, falar sem muito rigor acadêmico ou “querer aparecer” para tentar atingir mais mulheres. Aqui me liberto porque me lembro que sou feminista porque quero ver todas as mulheres desfrutando de seus direitos, livres da violência e donas de suas escolhas. Respeitando as nossas subjetividades, todo mundo se encaixa.

‘Panhando’ umbu com minha vó, dona Lourdes, em Brotas de Macaúbas — BA