Violência Sexual nos transportes: Repudiar não é prevenir

Porque empresas de transporte poderiam fazer muito mais para combater a violência sexual contra suas passageiras

Leia os relatos e tente não se desesperar

Desde que o feminismo e questões de gênero ganharam algum eco, algumas empresas perceberam que pega mal ignorar ou desacreditar alguns tipos de denúncia. É exatamente o que acontece com denúncias de violência sexual em transportes: as empresas responsáveis se desculpam e comunicam que repudiam qualquer forma de violência e discriminação. Ufa, agora sim me sinto mais segura! #sqn

Não foi diferente com o que aconteceu no caso vivido pela escritora Clara Averbuck, que relatou o estupro cometido pelo motorista do Uber, que deveria ser responsável por deixá-la em casa em segurança. Diante da repercussão do relato, a empresa alegou haver identificado e banido o motorista (ok, não fez mais que a obrigação) e alegou repudiar esse comportamento.

Uma prova dos nove para identificar a consistência de um discurso é coloca-lo do avesso. Faria sentido a Uber dizer que apoia a violência sexual? Acho que nenhuma empresa que prezasse por sua reputação faria isso.

Repudiar é fácil e óbvio, mas infelizmente não impede que casos de violência se multipliquem. Tampouco significa que a empresa assuma sua responsabilidade sobre a segurança das pessoas que transporta.

Violência sexual é coisa séria. Transportar pessoas também.

O fato é que o modelo de negócios da Uber traz algumas confusões à discussão sobre violência sexual nos transportes. Isso porque a empresa tergiversa sua responsabilidade sobre seus funcionários (motoristas) chamando-os/as de “parceiros/as” e reforçando a narrativa de que motoristas de aplicativos são empreendedores que buscam aumentar a sua renda com um “serviço inovador”. Bullshit. A Uber e outros aplicativos são empresas que transportam pessoas (através de relações precarizadas de trabalho). São, portanto, assim como viações de ônibus, balsas, catamarãs, companhias aéreas e empresas de táxi, absolutamente responsáveis pelo serviço que prestam: o de levar pessoas de um ponto X a um ponto Y em segurança.

A campanha irresponsável da Uber que deixa claro que transportar pessoas é um bico que eu, você ou meu vizinho que comprou a carta poderíamos fazer sem precisar de treinamento algum

Transportar pessoas envolve garantir a elas condições mínimas de conforto e segurança, assim como garantir que elas não podem ser discriminadas nem desrespeitadas e terão sua integridade física e psicológica preservada. Como o transporte acontece em um ambiente, a empresa também tem que ter o cuidado para que mesmo aqueles e aquelas que não sejam clientes não sejam desrespeitadas, feridas ou até mortas enquanto o serviço é prestado.

Para que essas condições básicas sejam cumpridas, não adianta contar com a sorte nem ter uma carta bonitinha de valores. Todas as pessoas envolvidas têm que ser preparadas para cumprir sua função de levar SERES HUMANOS de um ponto a outro sem causar danos à vida de ninguém.

Assim como um motorista de ônibus tem que aprender a fazer uma curva fechada com um veículo de 10 metros de comprimento, ele também tem que aprender que não pode tirar uma fina de um ciclista na rua e nem abrir a porta e assediar uma mulher que está parada no ponto. O motorista de Uber tem que aprender a mexer no aplicativo e a oferecer água pros/as passageiros/as, assim como tem que saber que ficar olhando as pernas da passageira de saia curta pelo retrovisor vai deixá-la constrangida e apavorada (e por isso, tcharan, ele não pode fazer isso).

Tendo treinado ou não seus empregados (ou “colaboradores”, “parceiros”, na língua precarizadora), a empresa que presta o serviço de transporte é responsável se algo não der certo. Mais um motivo para fazer todo o esforço possível para que isso não aconteça.

Prevenir violência sexual é possível — e urgente

A experiência com a criminalização da violência de gênero em todo o mundo é clara em mostrar como a punição por si só não é suficiente para diminuir os casos. No caso das empresas de transporte, não basta a empresa “colaborar com as autoridades” na identificação dos agressores. Até porque, como no caso do Brasil, ir até o fim com uma denúncia de violência sexual é um processo muito desgastante. Ou seja, se for olhar apenas para as denúncias formalizadas, o problema vai parecer inexistente.

É preciso ir além e se esforçar para desconstruir a cultura machista que coloca o corpo da mulher como público. Ainda que ela seja fruto de uma construção histórica de séculos, as empresas não podem fingir que não vivem em sociedade e se eximir da culpa. É preciso admitir que as empresas são formadas por seres humanos que, inseridos em uma sociedade machista, reproduzem comportamentos repudiáveis por considerá-los aceitáveis. Deixar evidente que desrespeitar suas passageiras e violar seus corpos não é aceitável é o desafio a ser encarado por todos que não querem que casos como o da Clara se repitam.

Deixo aqui algumas sugestões para identificar se a empresa está realmente se comprometendo em prevenir casos de violência sexual.

  1. Machismo, violência de gênero, assédio e abuso sexual são palavras que existem no diálogo entre empresa e funcionários/as?
  2. A empresa comunica claramente a seus/suas funcionários/as que invadir a privacidade, tocar sem permissão, conduzir conversas de cunho íntimo ou sexual, entre outros, são comportamentos inadmissíveis?
  3. Todos/as as pessoas que trabalham ou fornecem para a empresa estão cientes do que é a violência sexual e de que a empresa tem medidas para combatê-la?
  4. Há um canal fácil, acessível, anônimo e gratuito que permita denunciar casos de assédio e violência sexual?
  5. Existe algum protocolo interno para que a empresa colabora com a/o denunciante, forneça informações para as autoridades competentes e abra sindicância interna em caso de denúncias de assédio e violência sexual?
  6. A empresa se dispõe a dar apoio psicológico às denunciantes?
  7. A empresa monitora os casos notificados para estabelecer novas estratégias de prevenção?

Fica aqui o apelo à gerência de marketing/comunicação da Uber e todas as outras empresas de transporte que esteja pensando em como gerenciar o que para elas é mais uma “crise de imagem”: antes de elaborar qualquer resposta protocolar, leia atentamente os relatos das hashtags #MeuMotoristaAbusador e #MeuMotoristaAssediador e se perguntem como você poderiam evitar que esses casos ocorressem. Sempre há mais o que fazer.

PS: O combate à cultura machista e à violência de gênero, especialmente no ambiente dos transportes, é MUITO mais complexo do que sete perguntas. Se quiser continuar esse papo, me escreva no e-mail ananunes14@gmail.com