Muito confete e serpentina!

No Brasil, o ano só começa depois do carnaval. É a frase mais clássica para os que odeiam esta festa que, pode não ter sido originada pelo nosso povo, mas que realmente virou parte da nossa cultura e que até hoje é celebrada de maneiras belíssimas em diferentes cantos do país. Já foi constatado que isso não é verdade, todo mundo que eu conheço, que tem emprego, inclusive eu, já está trabalhando desde o dia 4 de janeiro, e não encontra problema nenhum em aproveitar um feriado de três dias. E mesmo aqueles que não gostam de fantasias e folias não deveriam ver problema em aproveitar sua folga em casa, com a família, acordando tarde e assistindo Netflix ao invés de ir trabalhar. Uma festa tão cultural e tão celebrada não deveria causar tanto ódio, afinal não se trata de bagunça, preguiça ou baderna, é só uma maneira de a gente respirar para encarar o ano que vem pela frente, que apesar de já ter começado, ainda há muito por vir.

Trata-se de uma celebração que foi originada há muito tempo atrás, na época de reis e rainhas, e durante esse período eles desciam do trono para se transformar temporariamente em prisioneiros, ou mostrar sua submissão a seus Deuses. Historicamente, o carnaval representa a subversão dos papéis sociais, e ainda hoje, consigo encontrar na rua empregadas domésticas vestidas de princesas, garis vestidos de reis, homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de pirata, porque a beleza do Carnaval é você poder ser, mesmo que por alguns dias, quem você quer ser, ou quem você acha que merece ser. É uma comemoração que traz a liberdade de podermos nos expressar da nossa maneira sem ser julgados, de podermos nos vestir como nos sentimos melhor, pintar o rosto com as cores que colorem nossa alma, dançar da maneira que melhor expressa nossos sentimentos, cantar as músicas que falam com nosso coração. Carnaval nada mais é do que a liberdade de ser quem você gostaria de ser sem ter que se encaixar nos padrões da sociedade.

Eu, particularmente, adoro Carnaval! Não aquele que é para ser assistido, que passa na televisão e que se você quer ver de perto tem que pagar para poder entrar (nada contra quem gosta disso), mas eu gosto daquele em que eu posso ir à rua, com a cara toda pintada de glitter, o cabelo cheio de flores e a roupa toda colorida. Eu gosto de cantar marchinhas no meio da rua, de poder dançar no meio da multidão da maneira como eu bem entendo, e de não pagar nem um centavo por isso. Eu gosto de seguir o bloco, de conversar com todos ao meu redor sem saber de onde vem ou o que fazem, mas para perguntar onde encontrou a fantasia, porque escolheu aquela cor, e quais suas marchinhas favoritas. Eu gosto de dançar na chuva, de colorir o mundo com confete e serpentina, de admirar a variedade de pessoas, cores e fantasias ao meu redor. Eu gosto de estar no meio da multidão, de me sentir parte de um todo, sem ter que explicar o porquê eu coloquei aquela roupa, porque eu danço daquele jeito ou porque estou ali. Eu gosto de não ser questionada, de ser aceita e abraçada, e porque não, de conhecer gente nova e fazer novos amigos.

Em um bloco de rua, ninguém quer saber porque você acha que a fantasia de fada é a mais apropriada para você, para sua cor, para o seu gênero, para sua idade, para sua classe social ou orientação sexual. No Carnaval, se você se veste de melindrosa, de jogadora de futebol, palhaço, bombeiro, cigana ou de borboleta ninguém se importa, ninguém te olha torto, ninguém te julga ou te discrimina. Enquanto eu sigo o trio elétrico, eu me lembro de quando era pequena, e fazíamos bailinhos em minha garagem e eu escolhia a fantasia que eu achava mais bonita, mas quando criança eu podia ir vestida de leão para escola que ninguém se importava, até que a sociedade me disse que como adulta, eu não posso trabalhar vestida de hippie porque isso é errado. Talvez então, todo dia deveria ser Carnaval, todo dia devia ser dia de liberdade, dia de cantar, dia de dançar, dia de felicidade. Talvez se todo dia fosse Carnaval, a gente não precisasse respirar para o ano começar, porque o ano não ia ter começo meio ou fim, o ano só ia ter dias coloridos e cheios de glitter. Mas enquanto todo dia não é dia de Carnaval, vamos aproveitar os cinco dias que nos deram para colocar as máscaras que realmente nos representam até que tenhamos que tirá-las para fingir ser quem a sociedade espera que nós sejamos.