O Encanto da Solitude!

Existe um teólogo alemão que diz que a linguagem criou a palavra “solidão” para expressar a dor de estar sozinho, e criou a palavra solitude para expressar a glória de se estar sozinho. Nossa sociedade atual tem uma dificuldade imensa em “estar só”, a tecnologia acaba sendo uma importante aliada para que o sentimento de solidão nunca nos domine no dia a dia. Trocamos inúmeras mensagens por Whatsapp durante o dia, acompanhamos o que acontece na vida de nossos amigos pelo Instagram e nos sentimos parte do mundo graças ao Facebook e a internet que nos conectam com todas as partes do globo em um mundo cada vez mais globalizado. Inseridos nesse cenário, mesmo quando não nos encontramos acompanhados fisicamente de alguém, podemos estar em contato com muita gente, e dessa forma conseguimos impedir que o sentimento de solidão nos domine, trazendo com ele tristeza e angústia. Porém, esse constante contato virtual com diferentes pessoas, em diferentes lugares, que ocorre em grande parte do nosso tempo, extirpa qualquer espaço que poderia existir para a solitude, nos impedindo de enxergar a beleza de se estar só.

Recentemente, fiz uma viagem para Europa, e por quinze dias viajei sozinha para lugares que não falavam a minha língua de origem e em que eu nunca havia pisado antes. Entre os grandes desafios que essa aventura me proporcionou, um dos maiores foi o de estar cercado de desconhecidos, principalmente em momentos de dificuldade, estou acostumada a ficar sozinha, e gosto de minha própria companhia de maneira geral, mas nunca havia me contemplado com tamanha solidão. Passado um primeiro momento de desespero e muitas mensagens trocadas com amigos e parentes,comecei a me acalmar, respirar fundo e procurar não me focar no fato de estar sozinha e longe de todas as pessoas em quem confio. Depois de um dia inteiro de passeio por Barcelona, de muito me perder, me deparar com inúmeros empecilhos, desconhecidos prestativos e ótimas sinalizações comecei a conhecer melhor a cidade. No segundo dia, eu que nem sabia o caminho de casa, já estava conhecendo os caminhos de Barcelona como uma local, sabia todos os metros, os pontos turísticos e já estava até dando informação para desconhecidos na rua. No terceiro dia eu já estava confortável o suficiente com a minha própria companhia para entrar em um restaurante e jantar sozinha.

Existe uma dificuldade imensa em entrar em um ambiente em que vão te perguntar: mesa para quantos? Dificuldade essa que se origina no medo, no terror de ficarmos apenas com os nossos próprios pensamentos, de ser olhado por aqueles que estão ao seu redor e carregar a sombra do abandono e da solidão. Mas se você deixar passar esse momento de pura agonia e desespero, se deixar senti-lo inteiramente e escutar seus medos gritando dentro de sua cabeça, sentir todos os olhos voltados para você, a solidão começa a se esvair, aos poucos, seus ombros vão descendo, o celular vai ficando de lado, a cabeça vai levantado e você se pega olhando ao seu redor. Só então fica claro para seus olhos e todos os pensamentos que te atormentam que está tudo bem, que ninguém está olhando, que as pessoas em seus jantares românticos, em seus happy hours e em suas refeições em família, às vezes estão se encontram em completa solidão, absortas em suas telas e seus celulares, se esquecendo de apreciar a beleza envolta e a companhia daqueles ao redor. Você então se esquece das pessoas, dos medos, do desespero, das angustias, dos pensamentos, do celular, e passa a apreciar o momento.

Com o coração mais calmo e já a três dias em minha própria companhia, comecei a me encantar com a beleza visual que Barcelona tinha a oferecer, completamente absorta na arquitetura que ela contempla, nas diferenças que existem entre a cidade em que eu vivo e a que eu estava conhecendo pela primeira vez. Meus pensamentos já não estavam mais voltados para a sensação abandono tão característico dos momentos de solidão, mas para o privilégio que era estar rodeada de tanta coisa linda e desconhecida, para a conquista que era eu estar ali aos 22 anos. Minha cabeça e minha alma já não se incomodavam mais com reflexões desesperadoras a meu respeito, dos anseios futuros e dos arrependimentos passados, mas em refletia sobre como o mundo é grande, sobre como existe tanta coisa para ver, tantas pessoas para conhecer, tantas histórias para ouvir e esses pensamentos me cobriram de uma paz imensa, até então, completamente desconhecida. Conheci então a solitude, na sua mais bela forma fiz as pazes comigo mesma e com os pensamentos que me atormentavam, porque no final, eu sou apenas mais uma poeirinha cósmica nesse mundo enorme, que eventualmente vai se esvair, e assim como todo o resto, fadada ao esquecimento. A minha sorte é poder conviver comigo mesma por toda a vida, é gostar de quem eu sou, de quem eu me tornei e de quem eu pretendo me tornar, sorte a minha que eu sou uma ótima companhia.

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