Spotlight e a escolha pela alienação!

Indicado ao Oscar em inúmeras categorias “Spotlight: Segredos Revelados” é um excelente filme sobre jornalismo investigativo. A história se passa em Boston, cidade americana conhecida por não ser simpatizante de pessoas que venham de fora, sejam elas estrangeiras ou mesmo de outras partes dos Estados Unidos. Porém, como os próprios personagens dizem algumas vezes durante o filme, as vezes é preciso um olhar de fora para que os problemas sejam revelados e colocados sob os holofotes. O filme é baseado em uma história real, a reportagem do Boston Globe que lhe rendeu o prêmio Pulitzer de jornalismo, e traz à tona os inúmeros (e aqui ressalto inúmeros) casos de pedofilia ocorridos dentro da Igreja Católica na cidade de Boston, estendendo-se ao mundo inteiro, mas acobertados diversas vezes, não apenas pelos membros da instituição, como também pelos moradores da própria cidade.

A mais importante mensagem que o filme transmite, apesar de muito sutil, é que todos são culpados em Boston, sendo as vítimas, as únicas inocentes do crime. E aqui é onde o filme incomoda o telespectador, que muitas vezes em face do horror da verdade, prefere ser enganado e vivenciar a mentira. Para nós, como plateia, é muito difícil escutar os relatos das vítimas do abuso, apesar de nada ser mostrado graficamente de fato, conseguimos criar uma imagem muito clara do que aconteceu apenas com as palavras e a dor que observamos nos rostos de quem sobreviveu à um dos mais condenáveis comportamentos da raça humana (méritos de atores secundários de grande qualidade). São sobreviventes que um dia foram crianças e tiveram sua infância arrancada pelas mãos daqueles que deviam ter oferecido conforto e inocência, e que se tornaram adultos sofridos pelo reflexo da violência a que foram expostos, trazendo sequelas psicológicas e espirituais eternas. E por algum motivo, os jornalistas de Boston, e nós como sociedade, escolhemos olhar para o outro lado quando elas nos vieram pedir ajuda, porque ninguém quer ler sobre crianças que sofrem nas mãos de padres, acreditamos que ficar na alienação e abafar essas histórias que incomodam nossa alma faz de nós pessoas mais felizes, afinal: “a ignorância é uma benção”.

O que Spotlight nos mostra é que não importa o quanto olhemos para o outro lado, apaguemos a luz e fiquemos na ignorância, isso não faz a violência parar de acontecer, pelo contrário, é a escuridão e o silêncio que empoderam os criminosos. Quando escolhemos ficar alienados, abafar o caso e acreditar que é apenas “uma maçã podre no pomar” (como várias vezes escutamos durante o filme), isso garante a impunidade de um crime que Deus nenhum, seja qual for o(s) seu(s), iria perdoar e nós, como sociedade, deveríamos punir com a maior severidade possível. O abuso é um crime grotesco e imperdoável em todas as suas formas, seja com quem for, com o gênero que for, na idade que for, porém, quando a vítima é uma criança, a violência rouba o que ela tem de mais temporário e precioso, sua pureza e inocência, gerando adultos conturbados e descrentes dos sistemas que lhes falharam quando deviam protegê-los. Existe um momento no filme, em que uma das vítimas, dando seu relato, diz que não se trata apenas das violências física e psicológica, mas também a espiritual, uma vez que para aqueles que, seguem os ensinamentos da Igreja Católica e acham neles conforto para sua alma, veem os padres como a voz de Deus na terra, e não existe a possibilidade de você recusar um pedido de Deus, principalmente se você é uma criança sofrida, de origem mais simples, e que encontra na Igreja e na religião seu maior, se não único, conforto.

O filme, não é desrespeitoso em nenhum momento com a Religião Católica, apenas cita fatos verídicos e nos mostra os membros da instituição que tentaram denunciar os casos de abuso e que buscaram amparar as vítimas desses crimes, porém, sempre silenciados pelos seus superiores. São esse silêncio e essa hierarquia, em que um encoberta o outro para não manchar o nome da instituição, que causam revolta em nos, como audiência e nos jornalistas responsáveis pela matéria. Por esse motivo, é libertador quando vemos Michael Rezendes, o jornalista interpretado por Mark Ruffalo, gritar em plenos pulmões que essa história tem que ser contada, divulgada, e que a verdade deve ser exposta diante da maior quantidade de holofotes possíveis, porque ser membro da Igreja Católica, ou de qualquer grande instituição, não pode ser desculpa para que um criminoso fique impune das atrocidades que cometeu. Nesse momento, o personagem de Mark fala por todos nós, seu desespero é reflexo do nosso como telespectador ao perceber os horrores que deixamos acontecer porque não queremos olhar. “Spotlight” não é uma obra prima do cinema, mas faz seu papel como arte ao nos mostrar o quanto ainda temos que crescer como sociedade para que seja possível construir um mundo melhor para as futuras gerações, e de como o jornalismo pode ser um grande aliado quando está do lado certo.

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