Apaty

Tenho muito medo da apatia. A palavra em si carrega pra mim o mesmo significado que “bicho-papão” teria para as crianças. Como um monstro, ela se esconde na escuridão e espera o nosso momento de maior vulnerabilidade. E uma vez que você se tornar apático, o caminho é quase sem volta. Acreditem eu já vi acontecer, bem na minha frente, em plena luz do dia.

Sempre tive facilidade de escrever. Não digo que de forma inovadora e autoral, mas apenas deitar sobre uma superfície a minha alma. Escrever é como desnudar-se. Você se expõe e se não o fizer de forma sincera, vira um strip tease barato. E ainda que eu não busque ser única, ninguém quer ser apenas um lap dance na vida de outra pessoa. Escrever é uma das minhas armas contra a apatia. Ao começar um texto, ou parágrafo, extraio de mim sentimentos desconhecidos, sabedorias ignoradas, conselhos desmerecidos.

Perdi meu irmão pra apatia a pouco mais de dois anos. De uma hora pra outra ele deixou de ser algo que tanto julguei igual a mim. Passamos pelos mesmos problemas e ao ressurgir no final do túnel, ele trouxe consigo somente as mágoas, enquanto eu me agarrei ao perdão. Foram saídas diferentes, não o julgo. Não delibero sobre a vida de outrem. Apenas nós sabemos das armaduras que nos são necessárias para escapar aos espinhos. A mim só resta o luto. Ele deixou morrer uma parte de si. Vestiu-se da apatia e não mais é capaz de apiedar-se por amor, só vejo seus olhos vazios e cheios de interesse; há quem confunda com objetividade ou maturidade, mas acreditem, grande foi a tristeza de vê-lo morrer em vida, digo isso, pois às vezes não o reconheço. Por isso, tenho medo, não, tenho terror à apatia. Hoje escrevo para ancorar-me ao cais e certificar meu estado de alerta. Dizer que estou aqui, vou rir, vou chorar, vou amar por todos ao meu redor e rezar pelo resto, pois deixar-se a deriva é perder pra correnteza.