Zen — Capítulo 3: A criança perdida

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Uma semana se passou e a sombra budista ainda me seguia em silêncio, exatamente como havia dito que faria. Tive que me segurar pra não puxar assunto, andar de elevador com ele era particularmente esquisito, mas não queria ser a primeira a falar e ainda estava testando a sua resiliência.

- Testar a resiliência de um monge me parece uma coisa estúpida de se fazer.

- Você não tá entendendo a minha situação…Não pode dizer que é uma coisa estúpida. — Tirei o domingo pra visitar minha irmã e sobrinhos, mas Marisa não estava sendo muito empática.

- Querida, eu tenho vinte e quatro anos e três filhos, acredite, sou a rainha das Coisas estúpidas. — Suspirei, o maior problema de Marisa é que depois que os filhos nasceram, ela acha que se tornou inquestionável e isso era extremamente irritante.

- Eu não sei como fazer pra me livrar dele.

- O quão chato ele é? Tudo que você faz ele questiona?

- Não… Na verdade ele fica só fica calado.

- Ah é, resiliência, você acabou de dizer. Não faz sentido. Que tipo de guia espiritual fica calado? Ou seria aquela técnica de terapia de só ouvir os problemas das pessoas e deixar que elas cheguem a uma conclusão sozinhas? Isso seria realmente esperto…

- Acho que não, acho que ele só está esperando eu vir pedir a sua ajuda. Coisa que eu não preciso… — Falei virando em sua direção. — E provavelmente eu não pediria se precisasse, só pra ser do contra, sabe como é.

- Nossa, você tem vinte e cinco anos, mas parece só cinco mesmo. O que você precisa é saber se ele está aí de verdade ou se está louca. Você se lembra da Joana que via espírito direto, não lembra? — concordei meneando a cabeça.

- Sempre achei que ela falava isso pra aparecer…

-É, eu também… Já sei! Vamos fazer um teste. Eles fazem isso nos filmes o tempo todo. Eu vou esconder as minhas mãos nas costas e você pergunta que número eu estou fazendo.

- Eu não acho que ele concordaria com isso…

-Vamos lá! — Disse ela sorrindo e já com as duas mãos para trás, tive a impressão de que ela estava achando tudo muito divertido. Respirei fundo.

- Monge…? — ele abriu os olhos. Uau. Tinha esquecido de como ele parecia ser velho… Quer dizer, tinha certeza de que estava na casa dos trinta, mas de algum modo, era antigo. Ele permaneceu em silêncio. — Então… É… Olá! Faz tempo né…

- Vai logo! — Me perguntei se ele me impediria de bater na minha própria irmã.

- Monge… Quantos… dedos… Marisa tem nas costas? — ele virou o rosto na direção dela, depois na minha e fechou os olhos novamente. — Ah, eu sabia.

- O que foi o que foi o que foi? O que ele disse?!

- Ele não disse nada na verdade. Não concordou em participar.

- Ah. Que cara sem graça… Já sei! Ele é um guia espiritual certo, então vamos fazer alguma pergunta que você não teria conhecimento suficiente pra responder, mas ele sim! — ela estava batendo palminhas com as mãos enquanto dizia isso.

- Olha não sei se vai funcionar, quer dizer eu tenho algum conhecimento religioso, não é bem assim…

- Tem mesmo? Não tem nada! Papai e mamãe são ateus e você se tornou uma.

- Sim, mas e daí? Você também, não?

- Você não se lembra de nada não? Eu casei na igreja. Sabe a grávida da barriga gigante de trigêmeos três anos atrás? Pois é, era eu, casando, de branco, na igreja. Sou católica desde a adolescência.

-Eu lembro, só nunca tinha relacionado uma coisa com a outra, sei lá! Tanto faz, pergunta alguma coisa então, Ó rainha da religião.

- Tudo bem. — Ela assumiu uma posição séria de repente. Permaneceu em silêncio durante vários minutos. — Monge. — Ele abriu os olhos. Ela me olhou e eu acenei com a cabeça dizendo para continuar. — Por que Deus me tirou o Pedro?- Quando ela disse isso, havia lágrimas em seus olhos, prendi a respiração.

- Ele não tirou. Pedro era um espírito muito evoluído. Ele veio à terra para que você conhecesse o amor, o perdão e pudesse dar à luz aos trigêmeos.

Eu repeti essas palavras exatamente como ele as havia dito. Minha pele estava arrepiada. Aos dezenove anos Marisa ficou grávida do namorado da faculdade que a abandonou assim que soube. Ela deu à luz a um menino que faleceu aos três meses de vida. Nunca vi minha irmã tão devastada quanto nessa época. Gabriel, o seu atual marido, era o pediatra de Pedro, e acompanhou de perto todo seu sofrimento. Não sei o que ela teria feito sem ele. Foi com surpresa e apreensão que recebi a notícia da gravidez dos trigêmeos, perguntei se ela tinha certeza que queria isso, ela me respondeu que havia nascido pra ser mãe. E agora estava sentada na minha frente, passando por um turbilhão de sentimentos.

- Marisa, desculpa… Eu não sabia que…

- Não. Obrigada monge. — ela estava sorrindo. Ele fez um gesto com a cabeça e voltou a meditar. Marisa me olhava muito séria. — Ana, agora estou preocupada. Você tem um guia real querendo lhe ajudar de perto. Quer dizer, eu tinha alguma noção que você não sabia muito bem o que fazer da sua vida, mas essa manifestação dele, prova que é mais sério do que eu imaginava.

- Eu sei o que estou fazendo da minha vida. — disse, ofendida.

- Talvez ache que saiba, mas claramente perdeu seu propósito original, algum tempo atrás. Apenas aceite essa dádiva, você tem um grande poder em suas mãos. — Eu quis rebater o que ela dizia, mas parecia tão séria que não me atrevi.

Passei o resto da tarde assistindo A Pequena Sereia com João, Manuela e Vitor. Tive a impressão de ver Mahatma assistindo também.

Levei Max pra passear e voltei pra casa cedo. Ignorei os pedidos de Lucas querendo me encontrar. Não estava pronta pra ter um encontro romântico à três. Fazia uma semana que eu me esquivava dele, não me surpreenderia se aparecesse com outra. Sentia sua falta, mas um monge flutuante diminuía o sex appeal de qualquer situação para -1. Ele teria de esperar.

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