Críticas e auto sabotagem
Aceitar as diferenças e aprender com elas

Não me considero tímida. Sou capaz de apresentar para um grande público sem dificuldade. Tenho opinião forte, consigo me expressar, articulo bem as palavras. Mas há um tipo de situação em que eu simplesmente não consigo participar. Sabe aquela rodinha despretensiosa, de pessoas jogando papo pro ar? Aquele coffee no intervalo do treinamento? Aquele momento pré reunião pra colocar o papo em dia? Ou aquele pós prova em que ta todo mundo pensando na próxima corrida… Pois é. Nunca me senti à vontade.
Eu não entendia o motivo. Às vezes, eu conhecia profundamente do tema. Eu sou leitora meio compulsiva, leio sobre tudo quanto é assunto. Seria bacana compartilhar. Mas as palavras não saem. E quando rola aquele silêncio?? Como começar um papo? Eu realmente nunca soube.
Mas o pior sempre é aquela sensação que fica quando a rodinha se desfaz. Podia ter dito isso. Podia ter mencionado aquilo. Poxa esqueci de falar tal coisa. E aquele fato, que interessante, por que não falei? Por que guardei tudo para mim? Por que não pensei nisso antes? E aquela famosa sensação de frustração. Perdi a chance de me expor, de ser mais, de contribuir.
E quando eu finalmente falo algo, como sai desajeitado! E eu fico dias ou meses pensando “nossa, por que falei aquilo?” “por que daquela forma?”. Ao menor olhar de reprovação (e lá tem jeito de agradar todo mundo?!) Junto com o arrependimento, vem aquela autocrítica doída: eu não tenho jeito mesmo, nunca vou conseguir me relacionar. Nem tanto né? Afinal, construí vários relacionamentos, embasados em muita prosa boa e confiança.
Mas fato, eu precisava entender melhor essa trava. Foi assistindo um vídeo da Jout Jout que uma ficha caiu. A primeira de muitas que a sucederam. Quando temos muito medo da crítica, será que não é porque criticamos demais?
E meses depois deste vídeo que fui perceber que disfarçado no meu tão admirado pensamento crítico e analítico estava uma certa crueldade. Estava o julgamento. Estava a falta de respeito com o livre arbítrio do outro. Eu sempre tinha uma opinião a dar (mentalmente). Eu sempre achava que toda e qualquer situação (ou pessoa) podia ser melhorada.
O mundo corporativo valoriza demais essa forma de pensar. A famosa melhoria continua, inimiga número 1 da inovação. Esse meu jeito de sempre olhar para algo pensando em como pode ser melhor, mais rápido e mais eficiente fez com que eu ficasse extremamente crítica. Buscando uma tal perfeição que só sufocava o risco. E existe sucesso sem risco?
Fui percebendo que meu medo de falar besteira estava enraizado na minha crença de que as pessoas pensariam de mim o que eu mesma penso. De que me julgariam como eu as julgo. Foi difícil para mim admitir esse meu lado sombrio. Logo eu, que sempre levantei a bandeira da liberdade!
Em uma das empresas que trabalhei, tive o prazer de conviver com pessoas que falavam uma besteira atrás da outra. E eu ficava tão inconformada, tão irritada… me perguntava: mano, o que eu preciso aprender com essa pessoa? Anos — sim, anos depois, entendi que o maior aprendizado era apenas ouvir sem julgar. Sem querer que a pessoa fale x ou y.
Aceitando a imperfeição das outras pessoas, será que eu consigo aceitar melhor minhas próprias falhas? Ao tratar os outros com mais leveza, consigo ter menos medo da opinião dos outros?
Estou testando :) É um exercício diário. Foi esse meu jeito que me trouxe até aqui. Essa criticidade toda que fez com que eu atingisse resultados tão bons. Mas é possível ter disciplina e leveza? Ter melhoria e aceitação? Afinal, como reduzir essa polaridade? Como aceitar que não há ninguém bom ou ruim, certo ou errado.
Somos mais que nossos erros ou acertos. E já sabemos, não há inovação sem erro. Então que tal deixar tudo mais leve? Menos culpa, menos arrependimento, menos julgamento, mais aceitação. Esse é meu novo mantra, digam os gurus de alta performance o que quiserem!
