O caso era claro. Paixão.

Carol Oliveira
Aug 23, 2017 · 3 min read

Quando entrei em seu apartamento ela estava na varanda, contemplando a rua, segurando seu habitual copo de café na mão, tão absorta em pensamentos que nem me ouviu chegar.

Quando cruzei a sala, que na verdade era nosso QG de investigações particulares, percebi que já havia um novo caso sendo estudado. No quadro branco havia alguns indícios, o caso era claro. Paixão.

Eu já sabia o que fazer. Ela continuaria na varanda até eu concluir minha análise, então puxei uma cadeira para me acomodar confortavelmente pois aquilo poderia demorar. A escrivaninha cheia de papéis espalhados me mostrava que ela já havia começado a investigação, mas deixara para mim a tarefa de definir o suspeito.

Meu papel era sempre achar o suspeito baseado em todos os indícios, e tinha liberdade para incluir mais alguns se achasse necessário, indícios que talvez ela negou serem importantes.

Olhando para aquele quadro branco pensei em todas as vezes que investigamos casos de Paixão, e fiquei me perguntando se esse teria um fim diferente, mas não cabia à mim essa decisão, afinal de contas, por mais que eu tivesse mais experiência, era ela que sempre decidia o que fazer depois que identificássemos o suspeito.

Havia um padrão nos indícios, mas não era sua culpa, afinal, ela era previsível. Resolvi começar pela música, que era seu ponto fraco. Percebi que no quadro já havia algumas canções que denunciavam pelas letras melancólicas e significativas, mas as músicas recém descobertas com certeza levariam ao suspeito.

Nesse momento me dou conta de que o que está tocando em seu celular em cima da mesa era mais um indício. Ela achou que eu deixaria passar essa playlist só com músicas do Ed Sheeran? Anoto a informação num papel e coloco no quadro. Passo para o próximo indício.

Eu poderia continuar analisando seus indícios de filmes e pensamentos anotados aleatoriamente e espalhados pela mesa, mas resolvo cortar o caminho e economizar tempo. Pego seu celular em busca de informações que com certeza ela iria querer esconder.

Começo pela barra de pesquisa das suas redes sociais, ela poderia ter deletado o histórico, mas levando em consideração a situação, tudo que eu precisava saber ainda estaria ali.

Dito e feito. O suspeito estava ali. Era fácil identificar, ela poderia não entender como eu descobri tão rápido, mas seu histórico era óbvio, mesmo eu não tendo analisado o suspeito ainda, eu sabia que era ele.

Anoto seu nome e coloco no centro do quadro, passo para a próxima etapa: aprofundar a pesquisa e descobrir mais sobre o suspeito. Mas nesse momento, ela se aproxima e coloca o copo de café vazio em cima da mesa, fitando o quadro branco com aquele nome no centro.

Ela coloca sua mão no meu ombro, sem tirar os olhos do quadro e me pergunta a necessidade de escrever tão grande. Ela parecia querer negar a minha descoberta ao se importar com o tamanho da letra. Já havíamos investigados tantos casos iguais que talvez dessa vez eu possa ter exagerado.

Antes que eu pudesse perguntar quando começaríamos o próximo passo, ela começa a recolher todos os indícios do quadro e guardar numa pasta amarela, onde escreve o nome do suspeito e cola logo abaixo da etiqueta escrita “EVIDÊNCIAS”.

Minha experiência diz que ela vai guardar a pasta no armário das “PAIXÕES”, armário esse que eu mesmo comprei, de ferro e com chave, para guardar todos os casos de paixões que ela resolveu não continuar investigando.

Porém ela também poderia querer guardar a pasta no armário dos “AMORES”, também feito de ferro e com chave, que continha apenas algumas poucas pastas, de casos investigados e solucionados.

Mas pela primeira vez ela me surpreende deixando a pasta em cima da mesa para ir até o quarto. Ela volta com uma caixa de papelão, dessas com tampa e alça, que nunca tinha sido usada. Ela a coloca em cima da mesa, pega uma caneta Bic e escreve, toscamente, na tampa: TEMPO.

Ela pega a pasta amarela com o nome do suspeito e coloca nesta caixa. Não poderia ter tido ideia melhor, eu penso, talvez este caso precise apenas de tempo para se solucionar sozinho. Ao tampar a caixa, ela se vira para mim e diz sorrindo:

— Agora vamos almoçar que eu estou morrendo de fome.

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Carol Oliveira

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Diante de tudo, escrever ainda é a melhor solução.

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