O ponto final

Aceite a sua insignificância. Era isso que a terapeuta havia lhe dito naquela manhã, insignificância. Aceitar. Apenas duas palavras perturbavam sua mente naquele momento, enquanto esperava o ônibus para voltar pra casa.

O conselho para aceitar esse sentimento de insignificância era ir até uma igreja, de qualquer religião, e apenas sentar no banco e observar. Estar presente naquele momento, observando quantas pessoas entram e saem daquele lugar para então perceber o quanto se é insignificante neste mundo.

Ele não entendeu o que era para ser feito, talvez por não gostar de frequentar igrejas, ou simplesmente porque era difícil aceitar a tal insignificância. Ele, que sempre quis ser útil nesta vida, gostava de sentir que tinha alguma função na história das outras pessoas e não só na dele, queria ser importante afinal…

Pensando tudo isso, embarcou no ônibus e escolheu seu lugar no fundo, como sempre fazia, pois o caminho era longo e movimentado e ele gostava de observar os passageiros durante a viagem.

Na próxima parada entra um grupo de adolescentes com uniforme de escola, que o lembrava de sua época de colegial, pareciam ser muito unidos e conversavam animadamente. Adolescentes não se importam com o que os outros vão pensar das suas risadas altas — ele pensou, sentindo saudade de daquela época.

Ao lembrar de cada amigo e o quanto eles tinham sido importantes na sua vida, ficou imaginando o que cada um estaria fazendo da vida agora, será que lembravam dele também?

No próximo ponto subiu um casal de namorados, ela parecia ser bem mais nova que ele e tinha aquela expressão de apaixonada estampada no sorriso. Ele, que vinha carregando uma sacola cheia de livros, desvencilhou-se de seu abraço para folhear um dos livros. Ela continuou com a mesma expressão apaixonada e admirada, mas ele parecia não sentir toda aquela paixão na mesma intensidade.

Isso o fez lembrar de seu primeiro amor, será que no final das contas ele havia amado da maneira dele e não soube demonstrar?

Mais alguns pontos passaram e mais passageiros entraram, e ele ainda pensando em tudo que a terapeuta tinha lhe dito, mas que não conseguia entender. Observando aqueles passageiros vivendo suas próprias vidas, tentou imaginar que havia feito parte da vida de cada um e que hoje era invisível. Teria sido importante, teria feito alguma diferença?

Ele não conseguia achar respostas para tantas perguntas, e também não conseguia ignorar o sentimento de total impotência e tristeza quanto à vida, que diferença fazia viver então, se não temos importância nenhuma pra nada?

Neste momento entra uma senhora idosa, e apesar da dificuldade em subir as escadas, ela consegue finalmente sentar no banco próximo ao motorista. Segurava sua bolsa preta junto ao colo, vestia um roupa florida e sapatos confortáveis. Sua aparência o lembrava de sua avó, que havia falecido recentemente, e então lembrou-se de seus últimos meses como se fosse ontem.

Todo o sofrimento que a doença havia causado para sua avó o fez parar de pensar em seus questionamentos sobre insignificância. Percebeu que ainda não tinha refletido sobre o que tinha acontecido. Talvez porque preferiu simplesmente aceitar e seguir em frente. Mas agora, vendo aquela senhora sentada exatamente como sua avó, se deu conta de que não aceitava a morte como parte da vida.

Que importância tem a vida perante a morte afinal? Que diferença faz vivermos tudo isso para nada? Sua cabeça foi invadida por um turbilhão de pensamentos e sentiu as primeiras lágrimas invadirem seu rosto, era a primeira vez que chorava depois que sua avó havia falecido.

A senhora então se levanta e pede para o motorista parar no próximo ponto, ele percebe que é o mesmo ponto que precisa descer, e acorda de seu transe de sentimentos. Desce do ônibus e, ao perceber que a senhora está com dificuldade para descer as escadas, corre até a porta da frente para ajudá-la.

A senhora sorri e ao descer agradece pela ajuda, o ônibus segue seu caminho e a senhora vai andando sem pressa pela rua abaixo. Ainda com o rosto molhado pelas lágrimas, ele decide sentar-se no banco do ponto de ônibus antes de seguir para casa.

Observando a senhora sumindo na próxima esquina e o ônibus parado no semáforo, ele respira fundo e olha para o céu e então percebe a árvore de flores amarelas que fazia sombra onde estava sentado.

Quando sente a brisa que balança suavemente as flores amarelas ele sorri de satisfação pelo momento presente. Seu coração está leve e agradecido por ter vivido tudo aquilo e, sentindo a felicidade por simplesmente estar vivo, ele finalmente entende o que a terapeuta quis dizer.

Ipê-amarelo que traz muitas lembranças…