Desafios da Moda Internacional e Mineira

Mesmo diante da crise, o mercado da moda nunca fica parado. Tendências surgem a todo o momento e essa rapidez faz com que os consumidores criem desejos pelo produto desfilado nas semanas de moda de Nova York, Paris e até mesmo na São Paulo Fashion Week.

Com o mercado em constante mudança, influenciadores digitais ditam a moda da vez. Eles têm o poder de elevar uma marca e de fazê-la ser esquecida pelo seu público. Todo cuidado é pouco nesse mercado. Além disso, a crise, que alcançou diversos setores em todo país, chegou à moda.

É PRECISO CONTORNAR A CRISE

Em uma pesquisa realizada pelo IBGE no mês de junho deste ano, constatou-se um recuo no comércio varejista de 5,3%. Os produtos ligados à moda não ficaram para trás. O volume de venda de itens como tecidos, vestuário e calçados chegou a cair 3,5% se comparado ao mesmo período do ano passado no país. Com isso, as marcas precisam se reinventar para atrair mais consumidores. Essas mudanças incluem como estratégias as blogueiras de moda e as redes sociais.

A vendedora Taiane Nascimento já conseguiu analisar os lucros que uma blogueira pode render ao seu negócio. “O meu cliente viu a blogueira com a roupa chegou à loja viu igual ou parecida, ele comprou. Alguns já chegam com a foto da roupa que viu em uma rede social e já vai direto nela. Ele não vai ficar horas escolhendo, já saiu de casa sabendo o que vai comprar”, relembra.

Já Kamilla Carneiro reconhece que, com o surgimento das redes sociais e das blogueiras, o mercado cresceu e aumentou os lucros através de uma divulgação de informação rápida para o mundo inteiro. Porém, ela encontra problemas nisso. “Essa informação rápida demais gera a falta de identidade (cópia) e o desinteresse pela compra física, gerando assim uma queda no mercado.”, analisa a estudante de Moda em Divinópolis, cidade considerada o pólo da moda mineira.

Assim como Kamilla, a estilista Marília Siqueira também têm algumas críticas quanto às consequências dessa divulgação na Internet. “As redes sociais e as blogueiras tem um incrível poder de despertar o desejo de consumo imediato, mas a indústria nem sempre consegue acompanhar essa velocidade”, afirma a estilista que trabalha no ramo há 33 anos.

MUDANÇAS NO MUNDO DA MODA INTERNACIONAL QUE AFETAM O BRASIL

As marcas internacionais, por exemplo, já notaram a tendência do esquecimento. Todos os anos, durante as semanas de moda internacionais, a mídia e até as blogueiras divulgam constantemente o que acontece nos desfiles. Neste momento a divulgação espontânea dos produtos gera um desejo de consumo que precisa ser suprido naquele momento. Porém, as coleções apresentadas só chegam até as lojas no semestre seguinte. Até lá as consumidoras já esqueceram os produtos e as marcas precisam fazer toda esta divulgação novamente.

Com isso, as marcas, uma delas é a Moschino, inauguraram o chamado Fast Fashion, que pode ser entendido como o consumo rápido de moda. Algo bem típico e característico do capitalismo, mas essencial para as marcas descobrirem e pensarem coleções pequenas ou marcantes capazes de suprir o desejo de consumo instantâneo. Mas, mais que isso, essas marcas internacionais conseguiram colocar as peças à venda após os desfiles.

Aqui no Brasil várias marcas já possuem e se consideram Fast Fashion. As diversas coleções cápsulas, coleções com poucas peças, que a Riachuelo, Lojas Renner e C&A lançam ao longo do semestre são exemplos de que essa estratégia já foi implementada no país.

Além disso, toda essa mudança e aceleração do consumo geraram transformações bruscas, inclusive no calendário da moda. As marcas internacionais agora se questionam se a nomenclatura “verão” e “inverno” são realmente as mais apropriadas. Os motivos são que elas vendem para o mundo inteiro independente da época. Os desfiles apresentam coleções que só serão colocadas à venda no semestre seguinte, o que vai contra todo o clima de Fast Fashion existente. Além das questões de divulgação.

Assim, todo o contexto histórico passa longe da realidade que a internet possibilita. A mais recente a entrar nesta onda é a Ralph Lauren. Eles utilizaram o conceito “see now buy now”, em português, veja agora e compre agora, e venderam suas peças do desfile desta temporada da New York Fashion Week.

Aqui no Brasil, algumas marcas já inovaram nesse quesito. A marca da estilista Sônia Pinto, foi a responsável por produzir uma coleção Outono-Inverno no Minas Trend no início do ano, enquanto as outras marcas apresentaram suas coleções Primavera-Verão 2017. A estilista teve o timing na hora certa. Assim, ao apresentar a sua coleção na época certa do ano, facilitou a compra do consumidor sem que esperassem aproximadamente seis meses para adquirir as peças da coleção.

MINAS GERAIS EM DESTAQUE

Apesar de Rio de Janeiro e São Paulo serem o foco da região sudeste, Minas Gerais tem conquistado o seu espaço no segmento da moda. “Os mineiros têm um alto poder criativo, muito diferente dos estilos paulista e carioca, com foco em riqueza de detalhes, características da cultura mineira”, explica a estilista Marília Siqueira.

Entretanto, há alguns pontos peculiares no mercado mineiro e que, para a estilista, só funcionam por aqui. “O que impede a visibilidade deste mercado não é o produto em si “Moda”, mas o modelo de gestão das empresas mineiras, que na maioria das vezes, adotam um modelo conservador, familiar, quase amador, o que impede de concorrer com empresas de outros estados, que têm modelos de trabalho totalmente diferentes, tornando-as mais

Mesmo assim, ela revela que o mercado de moda mineiro é constantemente elogiado e observado fora do estado. “Vários designers e estilistas mineiros estão trabalhando fora do Estado”, relembra a estilista Marília Siqueira. Uma das marcas mineiras que levaram seu nome pra fora foi a Gig Couture, da estilista Gina Guerra. Dedicada aos detalhes do tricô, a marca antes fazia parte do line-up no Minas Trend e, desde o ano passado, está na São Paulo Fashion Week.

Algo que deve andar junto com o destaque da moda mineira são os cursos relacionados à área. Marília Siqueira espera que as universidades aprimorem o ensino para esses novos profissionais. “Espero que o curso os prepare melhor para o mercado real, para a realidade que se vive dentro de uma indústria de confecção de moda no dia a dia, o que não ocorre atualmente. Vejo os novos profissionais recém-formados sem noção neste mundo de confecção, atrás dos bastidores, onde tudo realmente acontece”, conclui.

Ana Carolina Dias e Ana Clara Carvalho

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