Incoerência nossa de cada dia

Sou porta voz da incoerência, pois quando penso de forma lógica, sou tomada por sentimentos que me fazem agir diferente do que penso, sou tomada por outras vontades, e ser incoerente é o preço que pago para atender esses ímpetos de desejos. Dentro e fora ainda se desencontram em mim. Não concordo com que vejo, ouço e leio, mas paraliso. Porque sinto. O que é o obvio? Quanto mais sinto, quando mais me aproximo de meus instintos mais incoerente me torno, pois não muda a razão do “meu” pensar ou não muda a externalidade que o constrói. Não muda a cartilha, não mudam as regras, o jogo não muda. Tem sido difícil manter vivo racional e emocional num mesmo corpo. Pois não muda fácil minhas crenças sobre mim, toda essa represa em meu peito não cessa. Como é difícil ceder, quando não nos resta quase nada. E me libertar do pouco que acreditava ser eu. Acho que a coerência é privilégio dos animais, que podem e são fiéis aos seus instintos, sem sentir culpa ou dever satisfação a tal sociedade. Sou incoerente pois sou feita de várias matérias que muitas vezes não conversam entre si: pai, mãe, igreja, estado, projeções incontáveis sobre meu corpo, sobre minha pele, sou parte social, sou parte moral, sou bio-psico-social. Sou? Dizem que eu tinha tudo pra ser.
Para existir livre, faço um grande esforço para curar essa sociedade (i) racional que vive em mim. Mesmo que eu corra com os lobos, me transforme em mantra, mergulhe num mar profundo de amor. Ao acordar terei um dia todinho, me esperando com suas armadilhas colocadas por mim mesma para o exercício da minha incoerência, meu café da manhã pura incoerência, visto a calça jeans, aí que incoerência. Horas seguirei meu coração, horas serei pura adequação, sentirei vergonha quando os olhos alheios me encontrarem em uma dança fora do padrão, horas deixarei a maré me levar, horas farei força para a maré mudar. E como constato que serei, deixo ser. Afinal, todo dia haverá uma briga entre o desejo e aceitação.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Ana Carolina Martins’s story.