Homem pode usar maquiagem?

Jefree Star, dono de uma linha de cosméticos (que inclusive é vegana)

Como boa dona de um grande ego, começo falando de mim.

Eu sou mulher. Eu gosto bastante de maquiagem, uso com alguma frequência e gasto uma boa grana em cosméticos. Não sou a única e, na verdade, diante de muitas mulheres que não saem do próprio quarto sem uma máscara de produtos no rosto, eu sou bem de boas. Antes que alguém venha falar que estou cagando regra, pare e pense: sou só uma pessoa na internet e você ainda pode sair e gastar cem reais numa base sem que eu tenha qualquer controle sobre isso. Certo? Certo.

O que mais gosto na maquiagem é a beleza das cores, quase que do mesmo jeito que amo o jeito como as aquarelas se misturam e espalham num papel. A grande diferença entre maquiagem e outros tipos de arte é que a raiz da aquarela não é a opressão das mulheres e o ódio que somos condenadas a sentir por nós mesmas. Embora hoje cada vez mais homens estejam investindo em diversos produtos de beleza, as campeãs de consumo ainda são mulheres: são poucos os homens que sentem a necessidade de sair de casa sempre maquiados.

Ainda assim, maquiagem é parte da cultura gay já há algum tempo e, com o sucesso do reality RuPaul’s Drag Race, a maquiagem ganha muito mais espaço no universo masculino (no masculino homossexual, pelo menos). E daí vem a pergunta: homem pode usar maquiagem?

Bom, o sujeito trabalha 8h por dia cinco vezes na semana, e no começo de cada mês recebe seu salário e faz uma grande e gorda compra na Sephora. Nós não temos nada a ver com isso. O que sinto ter a ver com a discussão é o seguinte: por que homens que usam maquiagem são transgressores e as mulheres que negam estes aparatos e outras “feminilidades” sequer são lembradas? Porque as mulheres que vinham transformando seus rostos em verdadeiras máscaras há décadas não são ninguém na fila do pão?

A maquiagem masculina é motivo de reality, é arte, é transgressor, é “lacração”, é fashion, é tudo. Eu quando me maquio sou apenas mais uma. Quando gasto R$73 num lindo batom matte. Quando me sinto mal porque ao esfregar o algodão embebido em óleo no meu rosto, volto a ser uma mulher comum, com espinhas, poros, olheiras. Um saco.

Por que quando um homem faz algo que uma mulher tem de fazer para existir numa sociedade misógina ele é considerado incrível?

“Oras, porque ele está fazendo algo tido como ‘feminino’! Está rompendo barreiras de gênero!”

Sim, e que troféu as lésbicas masculinas estão ganhando nisso? Elas que também sofrem, inclusive com estupro corretivo para “virarem mulher”?

O que tiro disso tudo é que homem de maquiagem, de vestido, de cabelo grande, de salto, pode até ser bonito, mas não é transgressor nem lacrador. O que temos visto de incrível em maquiagem masculina não tem a ver com romper barreiras de gênero mas sim com ter o direito e poder de tirar o instrumento de opressão de uma classe e transformar em espetáculo. Um poder que mulheres “masculinas” não têm e nunca tiveram. De novo: porque não tem a ver com gênero e sim com privilégio masculino.

E ainda existem várias questões aí envolvendo o “direito” de compra e uso de produtos confeccionados por meio de testes em animais, trabalho explorador ou escravo de minorias como mulheres negras. Opressão capitalista. Tudo que convenientemente esquecemos quando aquela sombra ma-ra-vi-lho-sa é lançada. Assunto que merece outro textão, na verdade.

Respondendo a pergunta: homem pode usar maquiagem. Na minha opinião de feminista, poder não quer dizer ser incrível por isso. Admiro a capacidade dos homens que se montam como drags de transformar seu rosto assim como admiro as maquiadoras de casamento com seus delineadores impecáveis. Com mil ressalvas, mil questões, mas sem exaltar como algo incrível, empoderador, transgressor, destruidor, etc.

Esta é uma opinião impopular que eu prefiro não cobrir de glitter para embelezar. Sinto muito.

Ps: sei que Drag Queen é bem mais que maquiagem!