Nem magra nem gorda

Dia desses a Jéssica do Gorda de Boa fez um vídeo com a Hel Mother e as outras meninas do Canal das Bee. O tema era um dos meus preferidos: imagem corporal. Mas dessa vez o assunto era diferente, algo que vi pouco pela internet.
Mulheres que não são magras nem gordas.
O vídeo é bem bacana e eu já fiquei com um puta nó na garganta só de ver várias mulheres falando que se acham gordas sem de fato serem, mas também sem estar no terreno confortável da magreza. Na verdade, não existe terreno confortável nenhum quando se é mulher, mas dá pra dizer que alguns podem ser piores que outros.
Sempre que falo sobre meu corpo e a péssima relação que tenho com ele ouço coisas que pouco ajudam, talvez principalmente por não terem sido ditas por mulheres que passaram pelo mesmo que eu: não serem magras nem gordas.
Ouço frequentemente de pessoas gordas que eu sou magra sim, e isso sempre me dá nos nervos. Entendo que não faz sentido querer revindicar o lugar dessas pessoas, porque ele de fato não é meu, mas a magreza também não é minha — apesar de eu caber em roupas de numeração considerada comum e estar com um percentual de gordura dentro do normal, eu já fui chamada de gorda na rua com meu peso atual e já passei por uma série de situações que deixam claro que meu biotipo não é magro. Minhas coxas são grossas e minhas calças sempre rasgam, tenho o rosto redondo, tenho barriga, meus braços têm gordura e eu fico com vários pneus quando eu sento. Isso não é um corpo magro — e também não é um corpo gordo.
Quando dizem que somos magras, olhamos para pessoas magras e não nos vemos, e quando dizem que somos gordas, também não nos vemos nas pessoas gordas. As pessoas magras também não me veem como uma delas e as gordas idem. E tudo bem, porque de fato não sou nenhuma das duas coisas, e acredito que pensar o corpo somente nessas duas definições é muito perigoso.
No fundo o desconforto de não ser magra nem gorda é que não há espaço para esse corpo, que além de considerado imperfeito por não ser magro, ele também ocupa um quase-lugar que oscila entre as refeições, as roupas, os ambientes e o horário do dia.
Não há motivo para querer caber numa categoria ou outra. Acredito que essa tristeza por estar no limbo reflete muito mais o “não ser” do que o ser. Não ser magra, não ser gorda, não ser nada. Ficar sem algum tipo de identidade corporal é uma tortura, em especial no mundo dualista em que vivemos. Viver eternamente esperando que aqueles 5 ou 10kg magicamente desapareçam, ouvindo que você não precisa fazer dieta mas sabendo que comer o quanto quer também não te é permitido. Um lugar de transição que, na verdade, é meu estado natural desde que me entendo por gente.
Talvez seja mais fácil aceitar o corpo quando se entende que ele não é nem uma coisa nem outra, e portanto não cabe exigir dele que tenha a barriga lisinha, como se fosse magro, como dizem que somos. Entendendo que você não é o que esperam que você seja é o primeiro passo para ser a melhor versão de quem você já é.
Entender que eu não sou magra pode ser o começo de parar de tentar ser, de tentar chegar num lugar que está tão perto e que ao mesmo tempo custa tão caro. Se entendêssemos que temos um lugar, exatamente onde estamos, poderíamos nos aceitar.
