Ainda temos o que falar sobre apropriação cultural?

A discussão sobre o tema é mais ampla e complexa do que se pensa

Quatro de fevereiro de 2017. Uma publicação no perfil do Facebook de Thauane Cordeiro, de Curitiba, levantou o debate sobre apropriação cultural: a jovem contou sobre a abordagem de uma mulher negra, que questionou o uso de um turbante por ela, que é branca, sendo que o acessório é considerado símbolo de resistência para as mulheres negras. Na postagem, Thauane dizia não entender o “problema da sociedade” e finalizou com a hashtag #VaiTerBrancadeTurbanteSim.

Publicação da estudante Thauane Cordeiro sobre a abordagem por conta do uso do turbante por ela. (Foto: Thauane Cordeiro/ Redes Sociais)

A publicação teve quase 40 mil compartilhamentos e cerca de 139 mil pessoas se reagiram ao conteúdo. Os 1.380 comentários dividem-se entre opiniões daqueles que apoiaram a atitude dela e outros que condenam a ação. Além das interações no perfil da moça, veículos como o Huffington Post Brasil, Folha de S.P., Catraca Livre, Extra, Carta Capital e El País também se manifestaram sobre o assunto. A notícia, num primeiro momento, foi a repercussão da postagem nas mídias sociais; depois, as reações e opiniões sobre o ocorrido.

O ponto em comum na maioria do material sobre o tema foi a abordagem supérflua sobre apropriação cultural. Poucos textos discutiram o conceito e o que ele representa. Poucos textos se preocuparam em contextualizar a postagem, em escutar o “outro lado”, em refletir sobre o acontecido. O resultado? Exposições pública do racismo brasileiro em diferentes meios e formas.

Repercussão da publicação da estudante em jornais do meio digital. Com algumas exceções, os textos que debateram a apropriação cultural legitimaram o uso do turbante por ela por causa da doença; outros, estimularam a reflexão sobre o tema através do recorte racial.

O recente debate sobre apropriação cultural nas redes mostrou que ainda há muito a ser dito, principalmente fora da internet. O termo é abstrato, diz respeito à branquitude, ao racismo, ao capitalismo, e é bem mais complexo do que a discussão sobre o uso — ou não — de itens de outras culturas por uma dominante.

Para começo de conversa

É preciso resgatar o histórico do sistema escravista brasileiro para entender a marginalização do uso de objetos da cultura negra como um todo por seus membros.

A escravidão puniu e privou as pessoas negras de manifestarem a sua cultura neste solo. A capoeira foi criminalizada. As religiões de matrizes africanas, como o Candomblé, foram e são perseguidas. Mulheres negras tiveram o cabelo arrancado por usar tranças, foram proibidas de usar turbante e eram feridas pelas mulheres brancas por serem “bonitas” e “atraírem” a atenção (sexual) dos senhores de engenho.

O Brasil teve 358 anos de escravidão. A ideia de superioridade entre raças se consolidou por meio do sistema escravista. O mesmo que retirou a dignidade e a humanidade da pessoa negra, como descrito por Clóvis Moura em A dialética radical do do Brasil negro.

As consequências deste processo secular influenciaram os locais sociais que seriam ocupados pelos negros no pós-abolição, a formação das cidades no processo de industrialização e a forma com a qual a sociedade brasileira se relacionaria com a população negra. Cabe dizer que foram mais de 240 etnias retirados de seus territórios para terem suas identidades e símbolos culturais apagadas durante a escravidão.

Mapa da partilha da África por etnias.

Em Mulher, Raça e Classe, Angela Davis restaura a memória da mulher negra durante quase cem anos na história dos Estados Unidos da América. Além de contar sobre as violências, as lutas e os enfrentamentos raciais, o livro fala da exclusão deste grupo em espaços que elas foram pioneiras — como na luta por direitos trabalhistas das mulheres. Mesmo sem falar diretamente sobre apropriação, Davis deixa implícito os momentos que as mulheres negras foram obrigadas a esquecerem suas culturas: da exploração econômica do seu trabalhista à “masculinização” das suas performances no campo e à hipersexualização de seus corpos.

O mais curiosos é perceber que todos os conflitos e problemas raciais decorrentes da escravização das pessoas negras são entendidos como problemas desta população, quando na verdade não são. A tese de doutorado de Lia Vainer Schucman, Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude brasileira, por sua vez, aborda uma perspectiva nova sobre a temática racial: a da branquitude. Do lugar de fala de quem experiencia a “superioridade branca”, Schucman traz a reflexão sobre os privilégios das pessoas brancas, construído à base do preconceito racial.

Ela explica que “o branco não é apenas favorecido nessa estrutura racializada, mas é também produtor ativo desta estrutura, através dos mecanismos mais diretos de discriminação e da produção de um discurso que propaga a democracia racial e o “branqueamento””.

Ou seja, a ideia de “superioridade” é formada pela noção de civilidade da população branca. Essa ideia valida o genocídio da cultura e da população negra por meio da imposição de seus valores morais, sociais, culturais e linguísticos e incorpora aqueles que mais se assemelha aos seus .

Capoeira Angola, de Waldeloir Rego, desenhado por Carybé. (Pinerest)

Foi assim que o racismo apagou a memória coletiva do povo negro. Ao expropriar a população negra de sua cultura, a identidade dessas pessoas foi retirada. Por outro lado, os elementos da cultura dos senhores de engenho, dos brancos, foi imposta e absorvida, no que é conhecido como processo de “branqueamento”. Exemplo disso são os cabelos afros quimicamente alisados pelas meninas negras, já que o “belo” e “socialmente aceito” é o cabelo liso.


Bê-a-bá da apropriação cultural

A apropriação cultural é um termo que existe nas Ciências Sociais e Humanas. O que não existe, de fato, é um consenso sobre seu significado.

Na Antropologia, por exemplo, a discussão sobre o tema é deslegitimada pelo relativismo cultural. De maneira geral, o conceito diz respeito à concordância — ou não — de valores morais segundo a cultura do meio em que se está inserido.

Em entrevista ao Repórter Unesp, o antropólogo e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas da África e dos Afro-Brasileiros (Neaf/UFT), afirmou que não há imposição cultural entre povos, mas sim trocas culturais. “Eu discordo de que você tenha uma cultura negra e uma cultura branca. O que existem são práticas culturais”, declarou. No entanto, para que haja trocas, é preciso igualdade. E essa não é a palavra-chave quando o assunto é a questão racial no Brasil.

A problemática do relativismo cultural é apresentada por Harry Gensler, em Ethics: A contemporary introduction:

“aceitar o relativismo cultural priva-nos de exercer qualquer sentido crítico acerca das normas da nossa sociedade”.

As estruturas da sociedade brasileira são marcadas por uma hierarquia entre as raças. O IPEA divulgou dados recentes sobre a desigualdade de gênero e raça no Brasil nos últimos 20 anos. Mesmo com avanços, a estrutura social na educação, mercado de trabalho e renda continua inalterada: homens brancos no topo, mulheres negras na base. Entre os extremos estão as mulheres brancas e os homens negros, respectivamente.

A realidade socioeconômica brasileira decorre da exclusão da pessoa negra como cidadã. Este fato, por si só, impossibilita os intercâmbios culturais. Como Schucman apresenta,

os “mecanismos de produção de desigualdade racial [produzido pelos brancos] foram construídos de tal forma que asseguram aos brancos a ocupação de posições mais altas na hierarquia racial, sem que isso fosse encarado como privilégio de raça.”

A população negra é discriminada por sua posição social, sua identidade e sua cultura. Ela está fora do eurocentrismo sociocultural. Sendo assim, o uso de itens da sua cultura como forma de reafirmar sua identidade social é marginalizado.

A contextualização é necessária para fazer-se entender o sentido político da apropriação cultural. Se tem desigualdade entre grupos, não há diálogo democrático e horizontal entre as culturas. Isso porque a cultura dominante apresenta os padrões aceitáveis e incorpora símbolos de uma cultura não dominante sem absorver seus sentidos e significados. Desta forma, a branquitude garante os privilégios para que a cultura dos brancos sobreponha às demais.

Nina Barbosa faz “Turbantaço”, atividade que visa resgatar a arte e ancestralidade da mulher negra atravez do adorno, na Batista de Carvalho durante a Feira de Direitos Humanos. (Foto: Ana Carolina Moraes)

Quando se fala de apropriação cultural, fala-se de um símbolo que foi ressignificado para agradar a cultura dominante. A pedagoga e coordenadora de educação no Instituto Omolara Brasil, Patrícia Alves, explica que o problema, a partir do momento que um ícone da cultura negra é apropriado pela branquitude e comercializado no mercado tradicional, é a invisibilidade reservada às pessoas negras, à sua história e à sua ancestralidade.

O turbante, por exemplo, é símbolo de religiosidade para algumas culturas africanas, de distinção social para outras; no Brasil, é um símbolo de resistência por ser usado pelas negras escravizadas como uma forma de se embelezar, de reafirmar como mulher frente aos violações da dignidade humana. Fora deste contexto, o turbante perde seu caráter de resistência cultural e se transformar em mais um adereço fashion cuja apreciação está restrita à população branca.

“Isso que nos fere: tirar-nos a possibilidade de que nossos símbolos sejam fonte de fortalecimento, de empoderamento das mulheres negras, dos homens negros; e que, de alguma forma, eles sejam banalizado” — Patrícia Alves.

O debate nas ruas

A apropriação cultural pelo capital esvazia o sentido de um objeto para gerar lucro e invisibiliza quem o produz. Além disso, Djamila Ribeiro, em Apropriação Cultural é um problema do sistema, não de indivíduos, menciona que a incorporação dos símbolos pelo mercado não restitui a dignidade às pessoas que fazem parte de uma cultura subalterna. Pelo contrário: apaga ainda mais a memória de grupos inferiorizados.

Mas as dificuldades não param por aí. É na cidade, nas lojas e centro comerciais que se percebe como a apropriação cultural se manifesta. O discurso das ruas sofre influências das abordagens superficiais e fragmentadas sobre o tema.

Apropriação cultural e Afro-empreendedorismo

Além do impacto social e cultural da apropriação, a prática tem efeitos no cenário econômico. Afro-empreendedorismo está ligado aos negócios feitos por pessoas negras, que valorizam a identidade e cultura desta população e cria uma alternativa para a geração de trabalho e renda.

As baianas, Carybé. (Pinterest)

Os dados da pesquisa do Ipea mostram que a taxa de mulheres negras fora do mercado de trabalho foi de 13,3% em 2015, contra 6,8% dos homens brancos. Na pesquisa O mapeamento de Arranjos produtivos locais intensos de Cultura como ferramenta de reconhecimento social para a pessoa negra, que desenvolvo junto ao Núcleo Negro Unesp de Pesquisa e Extensão, o NUPE, o maior número de afro-negócios é administrado por mulheres negras: o projeto já mapeou nove iniciativas afro-empreendedoras em Bauru, das quais apenas uma é gerenciada por um homem negro.

Desta forma, a partir do momento que os itens da cultura subalterna são comercializados, as afro-empreendedoras perdem a oportunidade e o espaço para serem incluídas no mercado. A afro-empreendedora Greice Luiz comenta a necessidade de conscientizar o público sobre a importância de consumir esses produtos: “as pessoas não compram de você porque acham o seu preço caro, mas compram das lojas de marca, que se apropriam dos acessórios e cobram até cinco vezes a mais que o produto da afro-empreendedora, porque o objeto é de marca, porque tá moda”.

“É importante ter o capital de giro dentro do afro-empreendedorismo. As outras marcas dificultam a nossa permanência no mercado.” — Greice Luiz

O comércio pode não ter cor, mas o preconceito tem. Por isso, o consumo de itens da cultura negra vendidos no comércio tradicional contribui para o histórico de violações impostas ao povo negro. Ignora-se que 53% da população brasileira é negras (somando o número de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas no IBGE), mas somente 5% estão em postos de diretoria e gerência de empresas. Que a população excluída do mercado de trabalho encontrou no afro-negócio uma alternativa de subsistência. A concorrência desonesta com os comerciantes dificulta a permanência das afro-empreendedoras no mercado, fortalecendo o racismo estrutural.


Não, aqui não estão respostas definitivas para as perguntas a seguir. Inspirado no texto da Stephany Ribeiro para a revista Capitolina, este tópico reúne as principais dúvidas sobre o tema, que talvez não tenha sido esclarecido anteriormente.

Mas, afinal, o que é apropriação cultural?

É a descontextualização de objetos de uma cultura por outra cultura dominante. Um objeto, que antes era usado como símbolo de resistência ou identidade de um grupo social marginalizado, passa a ser incorporado pelo capitalismo e comercializando, ganhando novos significados e descaracterizando a cultura de um povo.

Como é que se lida com culturas subalternas?

Respeitando suas particularidades como um todo. É preciso desnaturalizar o olhar para fugir dos estereótipos que a cercam e entender as belezas e singularidades de cada cultura.

O uso dreadlocks, turbantes, colar de búzios por pessoas brancas é apropriação cultural?

Sim. A sociedade brasileira é hierarquizada racialmente, os valores cultuados são os europeus e o padrão imposto é o branco ocidental. Logo, tudo que é diferente — dread, turbante, colar de contas — só é bem visto quando utilizada por uma pessoa branca. E isso acontece simplesmente porque a pessoa é branca e se encaixa em todas as categorias mencionadas acima, ou seja, está dentro do que nossa sociedade considera normal. Enquanto isso, todos os objetos possuem um significado cultural para as pessoas negras. O uso assume um caráter político por reivindicar a origem, afirmar a negritude. O que poderia se transformar em um símbolo de resistência comum a um grupo social, para resgatar a identidade, se torna um objeto banal e vazio quando comercializado e usado por qualquer pessoa.

As pessoas brancas podem usar dreadlocks, turbantes, colar de búzios e fantasia de indígenas no carnaval?

Sim, não há restrição no uso por conta da cor pele, da cultura. Mas cabe aqui refletir sobre o porquê do uso. Uma pessoa negra na mesma situação não receberia o mesmo tratamento que uma branca, e teria sua identidade cultural apagada (mais uma vez). Se é branco e usa dreads, tem privilégios para garantir o seu “direito de usar”, a sua “liberdade de expressão”; privilégios que custam o direito de mais da metade da população brasileira.

Mas e a globalização difundiu todas as culturas, não dá para falar de apropriação cultural se não você não vai poder mais comer sushi, etc, etc, etc…

A apropriação cultura incorpora e esvazia os sentidos culturais, sociais e políticos de itens de culturas subalternas, de grupos que são marginalizados. A luta não é pela exclusividade do consumo, mas sim pelo respeito e consciência no uso e aquisição destes itens.

Mas eu tenho um(a) amigo(a), parente negro(a) que não se importa com nada disso, que não acha que é apropriação cultural, etc etc etc…

Tudo bem, não é porque a pessoa pertence à uma cultura não dominante que ela precisa ter todo esse discurso na ponta do língua e concordar com o posicionamento desse texto. Mas vale lembrar que apropriação cultural não é sobre você, indivíduo na sociedade; é sobre um sistema que inclui culturas esvaziadas e excluí seus protagonistas.