Minha experiência com Design Thinking e suas aplicações na Educação

por Pexels

A primeira vez que tive contato com o Design Thinking (DT) foi em 2015 quando participei do Torneio Empreendedor da PUCRS. Estava terminando o curso de Pedagogia e muito ansiosa para viver experiências diferentes, sair da zona de conforto. Durante todo meu percurso na graduação sempre falávamos nas disciplinas sobre educações inovadoras, salas de aula inspiradoras, metodologias diferenciadas, etc. No entanto, nosso curso era bastante tradicional e infelizmente, apesar dos ótimos professores, exploramos muito pouco todo esse mundo de possibilidades.

Já estava cansada de “viver” de teorias, queria sentir, fazer, experimentar, errar, começar do zero. Perceber uma educação mão na massa! Enfim, voltando para 2015 já no último semestre descobri um evento que estava acontecendo na minha universidade, o tal Torneio Empreendedor. Não vou me ater aos detalhes desse evento, quero mesmo é chegar ao ponto do DT e como ele mudou a minha vida. Sobre o Torneio, que guardo com muito carinho, farei um post exclusivo.

Lembro que de forma bastante despretensiosa me engajei nessa jornada empreendedora. Participei de todo o processo. O objetivo era o desenvolvimento de um negócio e para isso, aprenderíamos sobre a iniciação de startups, canvas, prototipação e todos os outros itens necessários para maturar um produto ou serviço. E, em uma dessas etapas, deparei-me com o tal Design Thinking?!

Como definir o Design Thinking

  • Metodologia que aplica ferramentas do design para solucionar problemas.
  • Equilíbrio entre o raciocínio associativo (alavanca inovação) e o pensamento analítico (redução de riscos).
  • Coloca as pessoas no centro do processo, compreende a fundo suas necessidades.
  • Requer liderança, com habilidade para criar soluções a partir da troca de ideias entre perfis totalmente distintos.

Inicialmente, tudo me pareceu muito abstrato até viver a primeira experiência mão na massa. Sempre fui uma pessoa muito criativa, cheia de ideias. Porém, perdi a conta das vezes que tive ideias sem propósito ou grande dificuldade para tirar as coisas da cabeça e colocar, de forma organizada, em um papel. Quando conseguia fazer isso, perdia-me na ação, não sabia por onde começar. Toda a jornada do pensar, testar e validar uma ideia era desorganizada, cansativa e dispendiosa. E, quando eu queria começar outro projeto do zero ou retomar algo que não havia ficado bom…, era uma bagunça, não tinha padrão ou orientação de como recomeçar. =(

Mas então, como passei a me organizar e entender os processos do DT?

O processo do Design Thinking

Parece magia, mas não é! Nas oficinas eu conheci como funciona o ciclo de vida do DT. Entendi que aquilo era só o primeiro passo, haveria ainda muito mais a explorar.

Apresentaram-me os processos de:

  • Empatia: a melhor maneira de entender situações que não nos pertencem é praticando a empatia. Essa habilidade nos ajuda a compreender sentimentos ou reações dos outros, colocando-nos em situações idênticas.
  • Colaboração: levantar o maior número de ideias possível de fontes multidisciplinares.
  • Experiência: testar ideias de várias formas para extrair as mais viáveis e confirmar as mais impactantes, identificando prioridades para o desenvolvimento futuro.

Para cada um desses processos, passamos por fases (no caso eu passei). E, em cada uma das fases, exploramos diversas ferramentas que nos auxiliam para chegarmos ao nosso resultado final de forma organizada, otimizada, divertida e eficiente!

by Guia Corporativo

As fases me mostraram como é possível se manter no foco da ação. Muitas vezes, no desenvolvimento de um projeto, resolução de um problema, etc, perdemos o “fio da meada”. Começamos de um jeito e terminamos de outro completamente diferente e até desconexo. Mas as fases por si só não adiantam. E é aí que entram as ferramentas de apoio.

Tem um livro muuuuito bom e eu super indico a leitura: Design Thinking and Thinking Design da Adriana Melo e Ricardo Abelheira (aqui). Ele é prático e mostra, através de exemplos, como usar o DT.

Essa página do livro é bem interessante.

by Design Thinking and Thinking Design

Lembra que lá no início eu falei sobre o ciclo do design? Então, olha ele aí de novo. Dentro de cada ciclo possuímos uma gama de ferramentas que podemos utilizar como apoio para o desenvolvimento de nossos projetos. Cada uma dessas ferramentas possui um objetivo e propõe determinados tipos de atividade/ação. Não precisam ser realizadas nesta ordem. Podemos escolher quais e quantas queremos utilizar. Também não são TODAS as ferramentas do DT, são as referidas neste livro. Mas já é bastante coisa!!!

Como usar tantas ferramentas em diferentes contextos?

Não vou explicar aqui o objetivo de cada ferramenta. O livro que indiquei aborta todas e com exemplos de atuação para quem quiser mergulhar na temática. Quero dizer que, depois de viver aquele mundo em 2015, percebi o poder do DT não só para meus projetos, mas também para todo o meu jeito de planejar e dar AULAS!!!

LEVEI O DT PARA A EDUCAÇÃO!!!

Educadores, quem nunca sofreu ao desenvolver um projeto científico com os estudantes?

  • Pensar um problema de pesquisa.
  • Desenvolver as questões norteadoras de um projeto de pesquisa.
  • Buscar referencial.
  • Definir metodologia.
  • Validar hipóteses.
  • Construir cenários.
  • Etc, etc, etc….

Com o DT podemos fazer tudo isso e muito mais de uma forma lúdica e divertida. Proporcionar experiências únicas e mão na massa.

Utilizando o DT em sala de aula com a aplicação das ferramentas

Vou trazer aqui o exemplo de 1 atividade entre tantas outras que já fiz usando o DT. Foi realizada com todos os quartos e quintos anos do ensino fundamental na escola que leciono. Como trabalho com as tecnologias, tenho a oportunidade de transitar por todas as turmas. Importante ressaltar que usei o DT em parte do projeto deles. Posso dizer que, dentre todas as fases do DT me ative nas de: descoberta, interpretação e ideação.

Como a atividade era orientada às crianças, adaptei todos os materiais, abordei de forma lúdica e não me aprofundei em ferramentas ou processos.

Quartos e quintos anos

Pedaço de um grupo de quinto ano =)

Uma vez por ano todos os segmentos de ensino da escola da qual faço parte participam da feira de Iniciação Científica. Proposta que desafia os estudantes a buscarem soluções dentro das quatro áreas do conhecimento. Durante um determinado período, desenvolvem seus projetos e os apresentam para bancas avaliadoras externas.

Dentro desse contexto, fui convidada para fazer parceria com os professores de sala de aula dos quartos e quintos anos para ajudar os estudantes a desenvolverem suas problematizações com o intuito de iniciar suas pesquisas. Cada turma possuía entre 4 a 5 grupos de trabalho. Por isso, tive o desafio de ajudar na construção de várias problematizações por turma!! Como fazer isso com todos os estudantes? Intervindo o mínimo? Aproveitando todos os talentos? Criando um ambiente sem julgamentos? E o mais difícil, conseguindo concluir a atividade com tudo pronto?!

Vou explicar em passos como eu fiz isso acontecer:

1 — Todos já estavam separados em grupos por temática de pesquisa.

2 — Eles já possuíam uma temática, não partimos do nada.

3 — Expliquei de forma bem lúdica o que é o DT.

4 — Abordei o que é um problema de pesquisa e por que ele é importante.

Até aqui foi teórico. É importante dar um contexto para o grupo. Deixar claro as premissas, objetivos e expectativas. Principalmente explicar que a atividade usando DT é agitada, mas que faz parte. Ela fomenta muitos debates entre as equipes de trabalho. E como bem sabemos, criança não fala baixo =D

5 — Usei a primeira ferramenta brainstorming (chuva de ideias). Cada grupo recebeu bloquinhos de post-its, papel cartaz e usaram suas canetinhas. Durante alguns minutos tiveram que escrever nos post-its problemas relacionados com a temática de pesquisa do grupo. Os grupos eram compostos por 5 ou 6 estudantes. Cada integrante escrevia e colava o post-it no cartaz. Na primeira etapa da atividade “ganhava” o grupo que escrevesse mais problemas.

5.1 — Teve um grupo do quinto ano que queria desenvolver o projeto sobre os animais (vejam como o tema era aberto). Na equipe surgiram vários problemas a partir da atividade do brainstorming, como: tráfico de animais, maus tratos contra animais, abandono de animais, animais de circo, contrabando de animais exóticos…

6 — Segunda ferramenta pesquisa. Cada grupo debateu sobre todos os seus post-its. Foram mais afundo nos problemas observados e pesquisaram. Muitos já haviam trazido vários materiais complementares de casa. Dei mais tempo para essa parte da atividade.

7 — Terceira ferramenta categorização. Essa não está neste livro, mas também é muito utilizada depois de uma chuva de ideias. Precisaram organizar todos os seus post-its em assuntos e prioridade de ação. Removendo informações idênticas e agrupando semelhantes.

8 — Elencaram os top 3. Os três problemas mais importantes para o grupo.

9 — Foram para casa com esses três problemas para entender melhor sobre cada um.

10 — Na aula seguinte, cada grupo debateu sobre seus três problemas principais e, com base em tudo que pesquisaram, precisaram elencar um problema.

11 — Lembram aquele grupo que eu citei como exemplo? Eles escolheram como problema o tráfico de animais exóticos.

12 — Esse problema ainda era muito aberto. Abordar tráfico de animais é muito amplo. Que tipo de tráfico? Onde? Removendo os animais do habitat natural? Abordar o alto índice de morte desses animais? Ainda precisávamos melhorar esse problema.

13 — Usei outra ferramenta que não está no livro, mas se chama árvore de problemas. Adaptei para as crianças, mas basicamente ajudou a detalhar mais o problema. Em uma árvore de problemas nós definimos o problema central e a partir dele suas principais causas e efeitos. Com isso, conseguimos muitas pistas para elaborar um problema completo.

14 — O último passo foi transformar esse problema em uma pergunta problematizadora. Essa construção foi coletiva e com a ajuda da professora. Passamos em todos os grupos da sala ajudando as equipes. Com todas as pistas que juntaram foi bem fácil construir a pergunta. Para o grupo que queria pesquisar sobre o tráfico de animais, chegaram a este ponto: Como podemos diminuir o índice de tráfico de animais exóticos na Amazônia?

Meu trabalho finalizou na etapa 14. O restante foi com a professora de sala de aula. Poderíamos ter realizado a pesquisa até o final usando DT, mas não era a proposta. Posso dizer que foi desafiador, mas muito gratificante. Especialmente com a produção rica dos estudantes e com a percepção de autonomia deles. Eu nunca imaginei que de um Torneio Empreendedor, lá em 2015, pudesse ofertar tantos insights. Mais do que isso, me proporcionar um processo tão maravilhoso como o DT.

É sempre desafiador tentar coisas diferentes, ainda mais quando não sabemos ou compreendemos o processo por inteiro. Mas não podemos desistir, precisamos nos desacomodar, nos reinventarmos. No final das contas vale muito a pena!

Para quem quiser complementar os estudos e entender outras formas de aplicar o DT no contexto escolar, vale a leitura desse e-book Design Thinking para Educadores aqui (tem versão em português no site).

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