O velhinho da Marechal — sobre bicicletas e cooperação

Moro em um dos pontos mais altos da cidade. Toda vez que vou passear de bicicleta preciso ter em mente que na volta tem uma subida gigante pra encarar.

Toda 
santa 
vez.

Hoje, depois de alguns quilômetros pedalados, ao pé da Marechal Floriano, percebi um senhor que descia me encarando. Aff! Preferi fingir demência. Não estava afim de confusão.

Ao chegamos perto um do outro, ele parou. Não resisti e tirei o fone: “Essa é a verdadeira cooperação”, disse sorrindo. “Você leva ela lomba acima, ela te leva lomba abaixo.” E seguiu seu caminho sem dizer mais uma palavra.

Nunca refleti tanto naquele trajeto. Pensei sobre o relacionamento de cumplicidade que mantenho com a minha bike. Lembrei das vezes que ela me ajudou a atingir objetivos. Só de enxergá-la próxima a mim já me sentia motivada. Tiveram também passeios despretensiosos, com um som bem alto, só para curtir a vida.

É. Estamos juntas nos bons e maus momentos. Nas vitórias e nas perdas. No deboísmo e no nervosismo.

Me preocupo com a sua saúde. Investi para que realizasse suas funções de forma mais segura e efetiva. Algumas vezes eu mesma enfiei as mãos na graxa para consertar suas falhas. Aprendizado, pensei.

Com os ventos do topo da Duque, chegou a nostalgia.

Lembrei da bici antiga. Quantas aventuras vivemos juntas… Foi com ela que peguei o gosto pela coisa. Quebrou, pobrezinha. Não deu mais conta do meu ritmo cada vez mais acelerado. Às vezes não tem mais volta mesmo, por mais que a gente tente arrumar. Trinta quilômetros diários não é para qualquer Caloi. Mais aprendizado.

Ufa, cheguei em casa!

Anelante, fui tomada pela gratidão. Primeiramente pelo simpático velhinho da Marechal — ele nem imagina que mudou meu dia. Depois pela bicicleta. O que seria de mim sem ela? Não teria sequer vivido essa experiência e aprendido o que é uma verdadeira cooperação: carrego ela pra cima comigo, e juntas vamos mais longe.

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