Os quatro

Filha,

Há 36 dias você mudou de status. Deixou de ser filha única para se tornar irmã mais velha. Fico pensando em como você está assimilando tudo isso. Você participou ativamente da chegada do Ernesto. Ouviu meus gritos nas contrações, perguntou o que estava acontecendo. Eu disse que seu irmão estava vindo e que eu precisava cantar para chama-lo. Você adorou e passou a gritar junto a cada contração. Me deu água e biscoito. Colocou toalhinha fria na minha cabeça. E ficou ao meu lado, o tempo todo.

Quando ele nasceu, você bateu palmas de alegria. O seu envolvimento foi tão forte que quando a pediatra começou a preparar o cordão para ser cortado, você ficou nervosíssima e brava com a médica que queria machucar seu irmão. Você teve que sair do quarto. A cada dia eu me surpreendo com as suas atitudes e com esse tal de amor fraternal que vejo ganhando forma entre vocês.

Mas filha, tenho que te confessar uma coisa. Nem tudo está sendo fácil para mim. Quando eu estava grávida do Ernesto muitas pessoas comentavam comigo que tinham medo de não amar o segundo filho como amavam o primeiro, que esse era um temor que elas tinham durante a gestação. Eu nunca senti isso. Desde o momento que me soube grávida de você, sabia que teria um outro filho. A minha certeza que nossa família só estaria completa quando nos tornássemos quatro, afastou o receio de não amar igual. Eu já amava esse quarto membro, ele estava lá, já era parte da família, mesmo antes de existir.

Quando o Ernesto nasceu o que brotou no meu peito, além do amor, foi a paixão. Sabe filha, a gente tem que se apaixonar pelos nossos filhos para sobreviver a loucura que é cuidar de um recém-nascido. Essa onda de ocitocina precisa transbordar para acalmar nosso coração, para brilhar o nosso olho mesmo sem dormir, sem comer, sem se reconhecer. E eu me apaixonei pelo Ernesto. Foi aí que as coisas começaram a desandar para nós duas. De repente você ficou tão grande, tão barulhenta, tão tudo.

Eu me vi sem saber como lidar com você. Porque o nosso relacionamento já é antigo, não é mais como paixão nova. Há quatro anos que nos conhecemos, passamos por muitas fases juntas, superamos diversos obstáculos, aprendemos uma com a outra. E amor antigo tem dessas coisas, as vezes esfria e precisa aprender a se renovar, se não acaba.

Demorei para entender isso. Por esse motivo te peço perdão. Perdão pela falta de paciência, pelos gritos, pelas broncas exageradas, pela falta de conversa olho no olho. Perdão por as vezes esquecer que você é apenas uma criança sendo criança.

Eu mudei. Agora sou mãe de dois e me adaptando à essa realidade. E você também mudou. Agora é uma menina de quatro anos, irmã mais velha. Vamos precisar nos reconquistar. Nos reconhecer. Juntas teremos que superar mais um obstáculo e reaprender a sermos nós. O mais importante, filha, é que mesmo com toda essa confusão teve algo que não mudou. O meu amor por você. Porque amor, amor mesmo, daquele que permanece firme no meio da tempestade, nunca faltou no meu peito.

Hoje fizemos um bolo na casa da sua avó para você. Eu fiquei te observando. E no meu peito foi crescendo um orgulho de ser sua mãe, de te ver lidando com as frustrações, de te ver carinhosa, engraçada, sapeca. De ver como você ama. Você ama muito. Ama seus avós, seus tios, seus padrinhos, seus pais. E o mais importante: você se ama. Quando cortamos o bolo, perguntamos para quem você daria o primeiro pedaço. Sem dúvida alguma, você disse: para mim! E comeu feliz!

Isso mesmo filha. O amor a si mesmo é um dos desafios mais difíceis dessa vida, por isso ele é tão essencial. Ame a si. E assim amará o próximo, com essa mesma intensidade. E quero te dizer: eu te amo, para sempre, sob quaisquer circunstâncias, mesmo com todas as mudanças que a vida nos trará. Eu te amo. Te amo por quem você é e vou amar quem você se tornará. Ainda dançaremos muita música na cozinha, leremos muitas histórias e viveremos outras tantas.

Feliz quatro anos, minha pequena de olhos de jabuticaba.

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Originally published at descrevivendo.wordpress.com on June 15, 2015.

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