Por muito tempo achei o dia das Mulheres uma bobagem sem fim. Ganhar flores, desconto em salão de beleza, cartões de empresa. Precisei de alguns anos, muitas leituras e conversas com outras mulheres para entender onde morava o meu incômodo. A sensação que eu tinha era que esse dia evidenciava o que mais me irritava no que diziam que devia ser uma mulher: a valorização da beleza acima do intelecto, a falsa fragilidade, o “apego” à futilidades. O meu incômodo não era com o dia das Mulheres, mas com a forma como a sociedade celebra esse dia. Tipo: vem aqui mulher guerreira, pega o seu afago, sua florzinha, veja como você é bonita, mulher valorosa sorte de quem achou, faça as unhas e ganhe uma hidratação, parabéns.

O dia das mulheres não é sobre isso. O dia das mulheres é sobre o caminho que ainda temos que percorrer para sermos consideradas um ser humano, autônomo, merecedor de direitos e de igualdade. Não no plano individual. No coletivo.

O Brasil ocupa a quinta posição num ranking de 83 nações como um dos países que mais mata mulheres: são 4,8 assassinatos por 100 mil mulheres. Uma mulher é morta a cada duas horas no Brasil. Assassinatos, em sua maioria, cometidos por seus parceiros íntimos, pais, padrastos. Por homens que tratam mulheres como posse, como objeto. Esses homens não são monstros: são produtos bem acabados do patriarcado em que vivemos.

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. E o crime de estupro, como quase todas as formas de assédio e violência sexual, é subnotificado, especialmente por causa de uma cultura que insiste em culpar a vítima e a duvidar de seu relato. Há pesquisas que sugerem que os casos relatados e que chegam ao conhecimento da polícia e assim aparecem nos relatórios de violência não chegam a 10% da realidade. São estupradas crianças, velhas, freiras, adolescentes. Não importa a roupa ou onde você está. Se você é mulher, você pode ser uma vítima.

Mais de 50 mil mulheres morrem por ano em consequência de abortos clandestinos. As mulheres que morrem, em sua maioria, são as pobres, negras. As mulheres de classe média e ricas abortam também. Mas em clínicas clandestinas que oferecem o mínimo de higiene e segurança.

A violência obstétrica atinge uma a cada quatro mulheres grávidas, parturiente ou puerpéria. São humilhações, silenciamentos, práticas realizadas sem consentimento ou que desrespeitem a autonomia, desejo e integridade (física e emocional) da mulher. Das mulheres que sofrem violência obstétricas, as mulheres negras são as principais vítimas. Na hora de fazer não achou ruim, ué, não quis parto normal, agora sofre mãezinha, olha só alunos, isso é um colo dilatado, podem colocar a mão, o pai/companheira não pode entrar, tá na lei mas aqui no hospital as regras são outras.

Mulheres lésbicas e bissexuais sofrem mais invisibilidade e preconceito, mesmo dentro da comunidade LGBT. São vítimas de estupros corretivos, são estigmatizadas, têm menos acesso à direitos. O Brasil é o país que mais mata lésbicas, bi, transgêneros no mundo. Quase uma morte violenta por dia. Apenas por serem quem são.

Segundo o IBGE as mulheres brasileiras trabalham cerca de 5 horas semanais a mais do que os homens e ganham menos, apesar do nível educacional das mulheres ser maior. As mulheres ocupando os mesmos cargos e exercendo as mesmas funções ganham 76% do salário do homem.

Todas as mulheres, desde pequenas, já foram assediadas na rua. Uma mulher andar no espaço público não torna o seu corpo público. Ô lá em casa, delícia, nossa bravinha fica ainda mais linda, novinha é melhor, que coroa, gostosa. Andamos desviando de olhares e temendo por ações.

A ninguém interessa a sua opinião sobre aborto, sobre as transgêneros, sobre as mulheres que estão presas, sobre as lésbicas, sobre as bissexuais, sobre estupro. A grande questão é: o seu discurso e a sua prática estão protegendo e evitando que mais pessoas sejam mortas apenas por serem quem são? Ou o seu discurso e a sua prática estão reforçando esteriótipos que na ponta final apoiam quem agride, humilha e mata?

A sua opinião, a sua fé, a sua própria experiência não devem ser usadas como régua. Não importa como você vive. Se você deu sorte de nunca ter sofrido um abuso, nem assédio. Se teve o privilégio de estudar e ganhar dinheiro. Se teve o privilégio de escolher ficar em casa cuidando dos filhos. Se você vivencia uma fé que te diz que você é separada, santa, escolhida. Se você não sofre violência doméstica. Se você não sofre preconceito por sua orientação sexual. Se você tem liberdade e autonomia sobre seu corpo, suas finanças, suas escolhas. Há centenas de milhares de mulheres para as quais isso NÃO é realidade.

Há centenas de milhares de mulheres sendo violentadas, mortas, humilhadas, assediadas. E amanhã podemos ser eu e você. Como já fomos no passado. E como pode acontecer com a minha filha, com minha irmã, com minha mãe.

O Dia Internacional da MULHER é sobre isso. É sobre gritar aos sete ventos que nós estamos juntas. Mesmo que o meu corpo não sofra dessas mazelas, mesmo que a minha cor diminua o preconceito, mesmo que minha orientação sexual seja aceita e celebrada. Se uma MULHER sofre todas sofremos.

Não é um pedido de pensamento único. Somos diversas e sofremos diferentes opressões. Acreditamos em coisas diferentes. Professamos as mais diversas fés. Temos opiniões, vivencias, experiências que nos fazem únicas. Temos lutas específicas. Cada luta, cada propósito deve ser ouvido. A luta feminista precisa ser interseccional, precisa abrigar as diferentes opressões que diferentes grupos de mulheres enfrentam.

Mas, toda mulher, TODA, deve ser livre e ter sua autonomia respeitada. Deve ser tratada com igualdade de direitos. Deve ter seu corpo inviolável. Deve ter acesso à educação, saneamento básico, saúde. Deve ter sua orientação sexual, sua identidade de gênero reconhecidas e respeitadas. Esses são direitos básicos.

Por tudo isso que no dia 08 de março eu PARO. O movimento da greve internacional de Mulheres cresce e deverá ser visto em muitos países. Mulheres no mundo todo vão parar. Mas como até protestar e fazer greve são privilégios que nem todas as mulheres têm acesso, se esse for seu caso, no dia 08 de março faça algo que demonstre que o Dia Internacional da Mulher não é sobre flores, sobre tratamentos estéticos. É sobre direitos.

Fontes para o texto:

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-1-denuncia-de-violencia-contra-a-mulher-a-cada-7-minutos,10000019981

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