Empregos na Saúde: ajude os outros mate a sua.

Sabia que este momento iria chegar. A constatação dos factos. O que levou alguém pegar na mala e voltar de Inglaterra.

Passo a explicar.

Frase mais importante desta história:

Não há empregos de sonho.

Todos os empregos têm o lado bom e o lado mau. Só temos de encontrar aquele que funciona connosco.

É preciso saber equilibrar as tarefas que não gostamos de fazer (o chamado broccoli) mas que são igualmente importantes, fazem parte da profissão e devem ser realizadas com o mesmo brio que as outras (põe o máximo que és no mínimo que fazes).

Somos um todo. Não devemos ser job selectives e fazer misconception entre “não gostar de algumas tarefas” com o “não gostar da profissão” e talvez seja por isso que vejo muitos colegas desistir das suas áreas de formação.

Considero que sou bastante matura nessa percepção. E que esse não foi o caso que me levou a despedir.

Cheguei à conclusão que o meu emprego era completamente absorvente.

Estava a mudar-me como pessoa e desinteressava-me cada vez mais como profissional. As razões que estavam a levar a esse acontecimento são tantas que dava para escrever uma semana. Não vamos sequer entrar por aí.

Claro que, posso afirmar que o desrespeito e falta de reconhecimento do crescimento exponencial de um profissional em início de carreira são talvez as mais importantes. Se bem que isso levava a mudar de emprego, não de país.

Sempre olhei para o meu perfil individual (success drivers, cognitive hability, soft skills) como ideal para a função que iria desempenhar na empresa. Apesar de muitas vezes me terem feito duvidar da minha capacidade de gerir o stress e suster altas pressões operacionais provocadas pelas deadlines.

Referindo-me concretamente às soft skills, tenho a dizer que essa é uma área de uma quanta controvérsia.

Chamam-lhe flexibilidade, eles querem que sejas NINJA.

Na realidade significa uma mensagem às 7:20 a exigir que estejas no emprego excepcionalmente às 7:30.

É fazer um horário de 10h/11h de trabalho, apanhar um táxi para o aeroporto, dormir no sofá do mesmo para apanhar um voo das 4 da manhã e começar uma formação às 9 da manhã do dia seguinte. Esperam que pelo meio agradeças a oportunidade. (ninja = desafiar as leis da física)

É conduzires 4h para chegar a um local e perceberem que estás a fazer falta é de onde vieste e por isso tens de pegar no carro e voltar na hora. (ninja = estás aqui estás ali — não interessa a que horas acordaste.

É se houver um problema e tiverem de fechar o serviço ficares a dever as horas e trabalhares no dia que estava destinado à tua folga. (ninja=se o “dever” chama deixas tudo)

É o teu contrato prever 40h semanais mas sair com 55h sem pré-aviso. (ninja= se és, então não é preciso pedir)

Chamam-lhe Gestão de tempo, o que eles querem é um Regresso ao Futuro

Dizem que te pagam a meia hora de almoço mas isso é porque vais mesmo trabalhar sem almoçar!

Pode significar levar um doente à casa de banho, começar um exame (posicionar, verificar ID, verificar prescrição e autorização médica), trocar um Vial para o teu colega poder injectar o doente seguinte e já agora ir buscar uma sandes para o senhor internado que está na bay de doentes internados tem demência e que entretanto também já precisa de trocar de fralda, te pergunta pela tia e reclama que está à espera do serviço de transportes há 3horas.

(Ps- a sandes vem da cantina que é do outro lado do Hospital mas que também és tu quem tem de ir buscar e que quando chegas tem fiambre e o senhor é vegetariano ou alérgico a ovos). Nesse momento a tua chefe cruza contigo no corredor e pede aquele excel com aquela auditoriazinha que te tinha pedido no início do dia.

É assim um regresso ao futuro com um volume de trabalho para 4 pessoas em que só estão 2 mas que as horas extra não são permitidas. A recepcionista quer sair à hora porque não recebe horas extra por tua causa e só pode ir quando o departamento fechar.

Chamam-lhe Capacidade de lidar com críticas, o que eles querem é uma relação Timon e Pumba.

Vais olhar para o plano do dia, perceber que é operacionalmente impossível, acontecer um incidente, perguntarem porquê e justificar a investigação com aquilo que criticaste no plano. Tu és o Pumba. Até podes tentar dar a ideia da realidade, mas eles são o Timon. Amanhã vão dizer o que disseste e vais ter de concordar como se fosses tu o inconsciente que ia a conduzir.

PS- Tive de perguntar se a conclusão da investigação era que não me tinha recusado a fazer o trabalho que me exigiram.

Chamam-lhe multi-tasking, o que eles querem é:

que tenhas a função do recepcionista, auxiliar, enfermeiro, engenheiro, IT, cleanner, corrijas o médico, ligues ao físico e ainda dês formação aos profissionais que contrataram a semana passada vindos do McDonalds, da Boots ou de qualquer sítio onde se ganhasse pior do que a ser a MariaFazTudo sem formação lá do sítio.

Agradeço a experiência, mas principalmente, por me fazer rir. É realmente surpreendente como as grandes empresas mascaram-se por entre valores que não existem.

Excelência. Aprendizagem. Eficácia. Colaboração.

Dizem eles, o que eles querem é…

Se gostaram façam clap no clap ícone. Ajuda-me a obter mais feedback sobre o que devo escrever :D