(Inês)quecível.

Começou o dia com um e-mail na caixa entrada, sem pequeno-almoço. Era apenas uma mensagem mas que estava prestes a mudar o seu dia.

Abriu e encontrou uma fotografia. Era uma Marina com Iates. Atrás um bilhete de avião com destino a Nice, França.

Podia ser amável, mas não seria eterno se tinha bilhete de volta. Era como em todas as suas aventuras de amor, em que gritava “volta” à vista.

Não podia querer significar muito e até isso a apaixonava.

Pela fotografia não era fácil dizer de que sítio se tratava. Sabia no entanto que seria mais um lugar para ser feliz pelo fim-de-semana.

Acho que todas as Inês têm esse poder de ser contentes. São aquele nome curto que fica na cabeça e entoa como uma canção. Como se de curto se tratasse o poder de o satisfazer de novo.

Para cada Inês um Pedro. São nomes que só ficam bem junto, sei lá se pela história ou pela moda.

Um Pedro um quanto romântico um quanto gelado. Nunca se deu por completo. Era impossível saber se sentia ou fingia. Se era fingido quando amava ou quando fugia.

Ele gostava de caminhadas à beira rio, à beira-mar, de dia e noite. Gostava de sorrir e penetrar com olhos-nos-olhos o quanto desejava aquela mulher. Ora aquela, ora esta, ora outra qualquer.

Uma dúvida eterna na cabeça de Inês para quem voltava sempre, não fosse ela, (Inês)quecível.

Era mais um fim-de-semana a dois para ser partilhado em segredo. Como se só às escondidas Inês e Pedro resultassem.

Aproveitaram. Mais ele ou mais ela. Ninguém sabe bem qual deles.

O plano de ir sempre vinha do Pedro mas o plano de como seria sempre era da Inês.

Uma competição entre quem comandava quem. Sem saberem que se enganavam mutuamente.

Ela aprendia do que é que ele gostava de falar, que músicas gostava de ouvir, quais as suas opiniões à mesa… Observava os gestos, os olhares, as reacções perante a confrontação, o medo, o desejo e o amor.

Ela estudava como ele era a todo o segundo. Só queria estar um minuto à frente do que ele pensaria, sentia, reagia ou dizia. Parecia simples.

Obcecada por poder sorrir no minuto exacto em que ele não lhe resistisse, como naquela vez à porta do Hotel, a Inês sabia que o momento estava a chegar.

Tinham acabado de jantar e o Pedro tinha virado duas garrafas de vinho sozinho.

Como já era habitual ele não se controlou e esqueceu-se que era a querida Inês que estava ali, mais uma vez.

E a Inês bebia para esquecer que o Pedro se tinha esquecido quem era ela.

A história que parecia de amor mostrava-se agora um filme de terror para adultos.

Empurrou-a. Ela caiu mas voltou a levantar-se confusa. Ele voltou a empurra-la e ela bate com a cabeça no corrimão das escadas.

Abre os olhos e percebe que já estava na arrecadação do Hotel. Não se lembrava sequer de como saíram do restaurante.

Vê ao fundo uma pequena casa de banho improvisada com um lavatório e a única luz que irradiava a sua silhueta nua era a que vinha pela porta.

O Pedro agarra-a com força, ao mesmo tempo que gritava o quanto queria estar com ela naquele momento.

Ele agressivo-passivo que parece ser de amor mas que só tem de violência quando terminou o que queria estendeu a mão e pela mão a Inês voltou para o quarto de Hotel com ele.

Ela chorou para que dormissem em conchinha como se de um casal se tratasse.

No dia seguinte, o Pedro acorda e olha nos olhos da querida Inês.

Nesse momento percebeu. Tinha acontecido de novo. Ele não se lembrava de nada, mas sabia. Os olhos dela estavam sem luz.

Ela sorriu de volta. Tinha dormido com ele e o resto não lhe interessava.

Nem as marcas dos dedos dele nos braços dela. Nem os empurros, nem os palavrões, nem o galo na cabeça depois de ter batido no corrimão. Ela só queria que ele se apaixonasse pela manhã.

Voltavam de Nice sorrindo como se do melhor fim-de-semana de sempre se tratasse.

— “Então e agora nós?” — Perguntava a Inês.

— “Agora eu e tu. Voltamos à realidade, sabes que não podemos ter uma relação.” — disse o Pedro.

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