Não sejas Alice.

Alice,

Deixa-te de rodeios. Vamos tratar-nos por “tu”.

Lá por agora achares que és uma senhora ainda não tens de usar títulos atrás do teu nome. A tua opinião perdesse no tom em que entoas as palavras, nos gestos e na forma como as expões.

A sério que ainda é preciso explicar-te que à portuguesa diz-se o que se sente?

Por falar nisso…

«Querida Alice»

É assim que se começa. Até porque te deves respeitar a ti própria, sempre e em primeiro.

Tu, Alice? Que odiavas que te chamássemos pelo teu primeiro nome e hoje nem te apresentas de outra forma?!

Relembra-te que a vida é feita de ciclos. Eles são importantes porque os nossos interesses, escolhas e gostos se alteram com eles.

Agora vá, diz tudo o que tens a dizer mas com jeitinho.

Ora, cá vai!

Vejo que estás a crescer.

Isto é, o teu ego continua a dar muito que falar.

Há coisas pelas quais te mantens fiel. A tua ambição. As tuas altas expectativas. A tua auto-motivação, superação e resiliência.

Mas… Sabes, nem sempre será possível arrancares páginas e fechar capítulos como mais desejarias.

Não vais poder prever tudo. E acho que finalmente percebeste que não podes controlar nada.

Umas vezes um empurrãozinho de alguém que nos quer bem ajuda. Uma barrigada de quem nos quer menos bem também.

Em outras os ciclos se fecham com um café pela manhã. Uma qualquer que nem sabemos o que tem de especial até nos lembrarmos dela.

Dói. É como uma estalada na cara. Ficas vermelha não pela força mas pelo embaraço.

Cada um é livre de escolher o que bem quer, quando quer e até de mudar de ideias.

Vejo que aprendeste a perdoar. Vejo que aprendeste a pedir desculpa também.

Sê meiga. Hoje podes pôr açúcar no café e fingir que foi engano.

E o café aqui era uma simbologia. Os teus não-capítulos são relações mal acabadas a ajudar com a tua mania de procurar falhas onde não existem e justificar perdas que nem são tuas.

Não te culpes por dar o benefício da dúvida: não fez por mal, não foi intencional, estava ocupado, esqueceu-se.

Para cada escolha uma consequência, mas para cada não-escolha uma e meia.

Se às vezes preferias ter tomado uma atitude, outras vais sentir que estás no sítio certo à hora certa.

Por isso, não percas tanto tempo em introspecções inúteis. Não te culpes quando és boa pessoa.

As coisas não têm de fazer sentido, têm de existir, saber existir, co-existir e tudo o que tem a ver pelo meio desde o dia em que nascem até ao que desaparecem.

É, certamente não será preciso relembrar-te que nem tudo morre. Tem vezes que só desaparece.

Umas voltam. Outras nunca. E ainda bem!

As pessoas são assim mesmo. Os amigos também. Uns ficam, outros vão.

Roubaste os últimos anos dos que gostam de ti para gostar mais de ti própria. E nem assim te amaste o suficiente.

Sabes porquê? A gente viaja para fugir ou para encontrar. Não importa para onde vamos que os sentimentos vão connosco.

Quando precisares de distância para ver o que se passa viaja. Mas quando precisares de dar um ponto final, uma machadada de bom respeito, uma cadeirada de raiva interior e uma choradeira até caírem lágrimas de sangue não esperes nem um segundo!

Nem tudo a distância é amiga. Ela tem o dom de sarar feridas mas de nos fazer esquecer os maus momentos. É nossa responsabilidade repetí-los nas nossas cabeças e nos relembrar do porquê de nos termos perdido.

Não importa se és marinheira senão fores capaz de atracar o barco, olhar à volta e contemplar a vista.

Não interessa quantas vezes bates o recorde da volta ao mundo da navegação senão encontrares onde parar.

Gostas do movimento porque te mantém ocupada, sem pensar no que deixaste por resolver.

Pára. Pára quando for preciso. Não sejas Alice.