Um dia me disseram que “Ana” significa alimento

(Hoje uma amiga pediu que eu me descrevesse e gostei do resultado)

Entendo que sou mulher em tempo de construções e desconstruções. Hoje mais do que sempre. Por vezes me comporto como uma criança maravilhada com o mar de possibilidades, momentos e sensações que ainda estão por vir, muito viva e desejosa de mergulhar no desconhecido. Encantada pelo mistério, pelo sentir que está entre o sentir, nos “interstícios da alma”, como diria Clarice. Pura — e aqui pureza é inocência — o bastante para lidar com o mundo como se fosse o quintal da sua casa e para enxergar sabedoria em todas as pessoas que passam.

Girando o prisma, vejo outra. Dessa vez é uma idosa. Ela leva consigo uma capa pesada e inseparável por onde anda, como quem não se permite descansar os ombros das memórias de dor que carrega. Ela não sabe só SER — nem que seja para se reinventar a cada Lua Nova. Essa senhorinha não é flexível e ousada como a criança. Ela é cheia de travas, medos, receios e padrões limitantes. Ela é crítica com o mundo e mais ainda consigo. Adota uma postura séria, rígida, questionadora e produtivista. Ela precisa se fazer crer responsável, afinal, é uma senhora. O maior medo da velha é de sentir dor e ela se blinda como pode, trajando sua couraça. Em nome da idade que tem, também precisa ser justa e ponderada, o que ela acha mesmo que é boa parte do tempo. Aí a criança chega e bagunça tudo.

A veste pesada que porta a minha anciã se emaranha no vestido leve e surrado da minha menina e juntas encasulam uma única criatura. Vivo nessa dualidade, além de ser ela.

Rezo para que essas duas moças deem as mãos e me encontrem pelo caminho.

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