#01

Sobre karma, reciprocidade e gente chata.

  1. introduzindo

Este texto poderia começar com um confissão: eu assisto How I Met Your Mother. E tenho tanta vergonha disso que não consigo nem encaixar esse fato em “guilty pleasure”, tendo que adicionar alguns termos para expressar o que essa série significa dentro da minha cabeça: “guilty embarrasing detail I shoudn’t mention because it makes people jugde me silently”. Mas eu preciso dizer que assisto How I Met Your Mother porque a ideia deste texto vem por causa do lado sentimental e besta que venho exercitando enquanto assisto essa série. É, é mundano e bobinho sim. É, é um rip-off de Friends (que já não é tão bom). Concordo, não faz o menor sentido e, putz, gostaria não precisar dessa introdução tão desnecessária para chegar ao ponto principal mas há uma personagem que me chamou a atenção pela forma que foi iconizada: “Karma”, uma stripper sem coração.

Karma é uma stripper que faz todos darem dinheiro a ela e, na série, é como o equivalente ao personagem principal mais cafajeste (e clichê) da série com quem, obviamente, acaba tendo um amor. Roteiro à parte, eu quero falar de carma: a ideia de linearidade do universo construída a partir da colisão de forças.

2. o que é carma?

Até onde entendo, carma é algo similar ao “destino”, mas é preciso subtrair a ideia de determinismo — carma não é estar predisposto a fazer algo porque um deus ordenou que assim fosse. Carma também não é uma possibilidade treinável e possível de experimentação, não existe carma de laboratório, controlável. É um “ali se faz, aqui se paga”. E quando você fez, meu amigo? Às vezes, a gente nem sabe, só quando já passou e você tem uma breve ideia de como veio parar naquela situação de merda. É a lei do retorno, de acordo com o espiritismo. Veja, carma é como aquela bola que você joga com força na parede quando estava puto e ela volta na sua cara. É quando o cara chato que você detesta encontrar no bebedouro se muda pro seu setor.

A sucessão de experiências ruins me fez vasculhar qualquer explicação para minhas desavenças e sempre usei um conformado “c’est la vie” para compendiar estas impressões sensitivas de estar sempre em débito.

Iniciei, a todo tempo, procurar visualizar as manobras cármicas na minha vida. Não que eu possa, ou queira, mudar o curso do meu carma — algumas coisas devem ser do jeito que se encaminham — mas quero ter a sensação falaz de que tenho algum controle do curso da minha vida, pra poder dar um “A-HÁ” quando acontecer alguma coisa e eu sacar assim, de primeira. Como se pode perceber, eu sou uma sofredora. Encontro pessoas que são chatas demais, ou redundantes demais, ou entediantes demais, ou, quando não são chatas, redundantes ou entediantes ao ponto de se encaixar nesses rótulos, elas 1) são boas demais pra mim 2) elas absolutamente não prestam. (me ocorreu que alinhar as coisas dessa forma soa dramático, e por isso eu peço desculpas a quem lê: sempre peco na hora de pensar positivo e em expressar sentimentos; fora isso, sou uma pessoa completamente balanceada, imparcial como um juiz)

E isso pra mim é o fim. Eu não quero ser convencida, mas eu faço o que posso para ser uma pessoa boa. Então, por que não consigo fazer com que as coisas mais importantes deem certo? Por que, DEUS, eu me sinto como uma vagabunda sem talentos, sem metas, sem amor e sem dinheiro?

Carma. Eu devo ter feito alguma merda que eu não lembro ou, então, enquanto meu espírito habitava outro corpo. Agora sim, as coisas fazem sentido. Tenho responsabilidade. Tenho controle. Não existe o acaso da vida, eu consigo prevenir meu futuro de ir para o saco somente controlando as minhas próprias ações, soltem os fogos!

É. Só que não.

A verdade sobre o carma é que, como Deus, trabalha de forma misteriosa, um pouco cruel e irônica. Apesar de ser dolorido, aceitar o carma e entender que foi um efeito borboleta que colocou você neste lugar, que a beleza do livre-arbítrio compreende a dor do carma, é como encontrar um banco pra sentar e contemplar o caos da vida. A vida é uma mulher bonita, e o carma deixa ela nua e a perverte. Mas ainda é uma visão bonita, se você aceitar a crueza da coisa — na minha opinião, temos um grande problema em aceitar as coisas cruas, como elas são. Quem sabe, o carma até se torne algo positivo, se você conseguir acompanhar ou ainda, só imaginar os drifts do destino.

Apesar de toda essa falação, eu sei que nós, humanos, não somos preparados para o fracasso. Precisamos do nosso final feliz.

Tive uma conversa esta semana que me fez pensar novamente sobre reciprocidade e enxerguei talvez a única função bonita do carma: uma chance de retribuir aquilo que o universo quer te dar fazendo o bem a outra pessoa. Te ajuda a sair da obsessão, escapar do elemento persecutório. Fazer um pouco de bem a alguém é como um loophole na lei do retorno. Como diz Louis C.K., você precisa cuidar das pessoas para que elas não te machuquem por dentro. É uma merda, é um saco, mas se não você não vê alguém bom ao seu redor, talvez você precise ser bom. E isso é uma responsabilidade enorme.