Arranco 16: Quando as luzes são vermelhas

Ana Clara Medeiros
Jun 10 · 2 min read

Não há visão que não doa ou coração que não se identifique. É como estar bêbada sem os meios de obter tal condição, e assim eu vi o diabo dançar por entre as clavículas do desejo. Deslizou, capeta que é, em curvas ósseas, brincou de excitar jovens poetas e alimentou mentes com pecado. Quando só o rubro me alcança, eu penso em maçãs, do Éden e comestíveis, do chão de onde vim e para onde volto. Eu vejo retratos eróticos da tua postura solta, também diabólica, de lábios tão convidativos. A única cor que resta, cor do sangue que derramam os violentos, que somos todos nós, da paixão e da dor. O lugar pisca, se transmuta, você continua igual aos passos do coco de roda. O coco também é rubro, frenético, gira gira e para. Para quando não há mais luz no fogaréu intenso. Você me reacende, beija meus ombros nus. Catuca o fundo de uma carne nova, exposta. Procura respostas que no vermelho são como gritos. É preciso beber cachaça quando as luzes são vermelhas, e sobretudo queimar-se. Derrete, mesmo que as clavículas estejam agora cobertas do suor genuíno, suco de você em que me embriago. Ferro em brasa, dentro de mim é tudo cor de amor. Se ama em lugares vermelhos, beija-se e morre-se. Também há fé, devoção, paixão que arde e nós a vemos. Falamos espanhol, queimamos a boca, dançamos músicas de brega, somos os poetas para os quais o diabo sussurra, excita e brinca. Arrancamos pedaços, amamos de novo e não sonhamos. Mordemos. Agimos como animais, viramos Adão e Eva. Vivemos do pecado quando as luzes são vermelhas. O planeta Terra é azul por obrigação, mas a realidade é outra mais escura.

E ainda temos a audácia de desligar a luz.

Ana Clara Medeiros

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“Os símbolos, como se sabe, são intocáveis”.

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