Arranco 17: Cartas à Kundera

Ana Clara Medeiros
Jun 30 · 5 min read

“Kundera,

as alegrias de se estar amando, ou melhor dizendo, de sentir amor, e tento não excluir esse apego sentimental a coisas, bichos, livros de potencial, realmente são relativas. É estranho, durante muito tempo, ter escrito de forma bonita e talvez muito ingênua sobre amarrar meu coração em instâncias, e agora, defronte a situações em que com certeza minha postura seria de total arrebatamento à coisa amada, sinto-me assim: como Bento, ao confirmar sua devoção a Capitu aos 15, onde tudo é infinito. Cavando ainda mais profundo nessa história, ser apaixonada e, por Deus, inocente, me faz mal à vida. Sinto dores próprias de um individualismo pior que o de Shakespeare e sabemos, não precisamos, desta vez, gastar com pás e sítios de escavação. Você olha para mim e enxerga que, como boa britânica do século sei lá quanto, Shakespeare viveu neste século, eu sofro e não sirvo. Não sei se é o que pensas de Tereza, sinto-a mais burra e inadequada que eu. Sinto que falta uma grande complacência, senão compaixão mesmo (e coitada!) para com seu próprio eu. Analisando Tereza, pude ao menos reconhecer, mesmo que por pouco tempo, uma beleza encorajadora em ser amante de flechas de cupido.

Afinal, eu também soube apontar as flechas para mim mesma, e é de um prazer orgástico, quase transcendental, me amar com esse mesmo arrebatamento para o qual olho a vida, as coisas, os bichos, os livros, as pessoas.

Enquanto Tereza… Tomas deve estar muito enganado, ou ela também pode aprender com os suicídios do amor”.


“Kundera,

‘O herói de Beethoven é um halterofilista que levanta pesos metafísicos’.

Você não sabe disso (ria junto nesse cacoete METAFÍSICO), mas sou uma grande fã de Jogo da Amarelinha, livro do escritor argentino Júlio Cortázar. Ele também abusa bastante de ‘algos’ intocáveis, distantes demais a uma compreensão ocular puramente humana, e após ler essa frase em destaque feito por mim da tua obra, cheguei a três conclusões:

1 — À esses romances, (em outro momento especifico quais) precisamos de vocação à literatura sobre-humana.

2 — Vocês poderiam muito bem ter trocado cartas caso fossem contemporâneos. Preciso verificar a probabilidade de acerto desse ponto.

3 — A metafísica é tão doce quanto o amor, a tristeza e a morte.

É de tesão universal as coisas para além de nosso plano. Os mais caxias, costumo chamar assim aos seres humanos que não se deixam provar dessa visão de mundo mais enigmática e menos… Real. Aqueles, sabe, em que o mundo é só uma grande casa da qual os confere ações biológicas nas quais se come, reproduz, por vezes se goza (de ambos os campos semânticos) e se morre. Até a morte é só um grande ponto final aos caxias, quando a doce beleza da dúvida, do que nem sabemos que existe, das loucuras que sentimos das quais procuramos palavras, sentidos, consolo em bebidas alcóolicas ou sei lá mais que porra! É disso que devemos ter sede, é isso que não faz do planeta Terra um lugar bem mais interessante, e de nós; de mim, você, Cortázar e algumas outras figuras pitorescas as quais conheço, sobre-humanos (?). Meu pai, ora caxias ora muito mutante, diria que todo esse papo fora de cena, pesos e rios metafísicos, é coisa de escritor. Não sei se discordo, mesmo que existam seres humanos que não escritores, e eu os conheça, que me olham com olhos metafísicos dessa mesma forma, Kundera. Mas talvez e só talvez, com certo deleite, como aponto da minha 1ª conclusão, a vocação é inicialmente literária.

Somos, portanto:

1 — Todos, escritores metafísicos ou

2 — Sonhadores concretistas.

Um brinde às interrogações”.


“Kundera,

eu tenho raiva de me ver em Tereza. Obviamente que não são em todos os momentos até agora, mas esses poucos, do tamanho de formigas, doem no peito as dores de um mundo. Além dessa peculiar situação, também me sinto incomodada (e espero que você entenda esse incômodo como quem estuda o horizonte de expectativa) com a dicotomia da alma e do corpo. Porque eu vejo, em mim mesma, essa falta de cuidado, as vezes em que minha alma menos tempera e não lembra do narcisismo necessário. Nossa, chega a me cutucar tanto que, murcha, só consigo te contar o que sinto.

Ai”.


“Kundera,

cada vez mais eu entendo seus dizeres sobre Tereza, já que tenho uma personagem com quem a sua certamente trocaria uma boa prosa. Engraçado, são nomes que se parecem, — Tereza e Tácia — só possuem em contraponto o homem, mas até o mesmo destino ambas encontraram, os quais ainda não sei da compatibilidade, ao certo, mas nem importa muito. O mais objetivo de nossas personagens, sem dúvida, é a chama por uma fraqueza que não é inerente ao ser humano, mas elas agem como se fosse. Tanto Tereza como Tácia se agarram a uma fragilidade própria, tão dolorosa, e pior, contagiante! Tomas e Joaquim lidam com esse fardo de diferentes formas, e mesmo não sendo lá grande fã de Tomas, admiro, até o momento, como ele conduz a situação: sem medo, mas na admissão de um amor, que com compaixão (uma definida compaixão), não a machuca, pelo menos não diretamente. Gosto como nossa escrita e criação é compatível por des-intermédios do destino.

Tereza continua doendo”.


“Kundera,

o destino é tão bonito e tão enigmático na sua escrita! Para mim, há realmente uma beleza no destino, mesmo que as coisas não se comportem de maneira (pigarro) bela. Sabe, as pessoas morrem de câncer aos montes por ai. Não sei se é a dúvida de saber se haverá um câncer ou se se ganhará na Mega Sena que é o grande enigma, se a beleza não é do destino em si, mas do que tão incrivelmente você usa como artifício no livro.

Também há, não podemos negar, a desgraça dessa dúvida. Ou, ao menos, é aparentemente terrível para os personagens que desenvolves. Tereza tem o coração quebrado porque sabe que os acasos, acasos que até o momento abraçaram (veja! risos) sua vida com (não elegível). Tomas teme a, vejamos, dúvida do acaso. Seria o número 6 bom ou ruim?

Por acaso, a carta rasgou na metade, me desculpe.

Não duvidei de mim”.


Um grifo: Os símbolos, como se sabe, são intocáveis.


Um grifo: Sim, se alguém procura o infinito, basta fechar os olhos!

Ana Clara Medeiros

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“Os símbolos, como se sabe, são intocáveis”.

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