Arranco 19: Confissões, coisas que foram ditas, um docs em branco

Para Raphael, na memória.
Ele: “… Quando eu tô do teu lado, parece que a margarina fica mais gostosa, o céu mais azul, a noite mais estrelada, o vento mais frio e a minha ansiedade mais calma etc. Principalmente etc. Talvez não me fiz por entendido… Sabe o que é uma boa margarina? É quase que a lembrança que tenho de você, sentado à minha frente… Contra o sol. A sensação é maluca! Maluca! Como se estivesse em um docs em branco. Respondo tudo!”
Ela: “Eu queria ter uma resposta inteligente agora, mas não tenho. Tenho certeza somente de muita coisa! Muita coisa!”
Ele: “Para quê o empurrão? Deve ser um saco ficar à espera de um”
Ela: “O mundo é uma merda… Me sinto à vontade para dizer isso com poucas pessoas. A maioria não me entende nesse aspecto. O mundo é uma merda = pessoas fazem do mundo uma merda = pouca coisa podemos fazer para mudar isso! Pouca, às vezes parece muito, mas não é. Então, o que nos resta é rir, abraçar o outro enquanto não morremos. Você não precisa de respostas inteligentes, talvez eu que queria ser legal e dar respostas inteligentes e parecer inteligente”
Ele: “O amor é igual a um toddynho gelado. Uma hora acaba, mas é inesquecível. Eu não, você, você… Parece que estou escrevendo feito os surrealistas do século XX… Então, lá vai, o amor é um estrume, mentira. Fluxo de consciência. Pra que tu queres entender o que é o amor? O que vai lhe servir?”
Ela: “O amor pelas ações? Pelas pessoas? Eu não sei mais”
Ele: “Fulana, estou preocupado com você! Tá tudo bem por aí?”
Ela: “Queria acreditar que sim pra poder te dizer o mesmo”
Ele: “Não precisa, entendo que estás mal”
Ela: “Não aguento mais te dizer que é assim que eu me sinto”
Ele: “Você é tão grande, Fulana…”
Ela: “Como? Da onde que se mede?”
Ele: “Eu não sei, só sei… Não sei como medir isso. Tu és toda poesia”
Ela: “Poesia suja. Não legível. Que incomoda. Eu não suporto o peso da minha própria existência”
Ele: “Olha, me parece que é só isso que te pertence aqui. É bom aguentar. Sair do tédio”
Ela: “Eu queria ver o que de mais importante tu tem pra dizer pra alguém. Comecei a pensar nisso e não saiu nada”
Ele: “Eu e minha postura infantil de brincar com tudo, perdão”
Ela: “Pensei que a finalidade era dizer o que eu queria ouvir de outras pessoas”
Ele: “Serve. O importante é o não arrependimento. É ver as coisas de fato serem feitas”
Ela: “Serve ao mundo. É o que move. O que me move. O que eu acreditei que me movia e o que eu acho que me move. Eu acho que não sei quase nada sobre o amor. Por isso, eu não o mereço. Me responde uma coisa. Ou melhor, algumas coisas!!! O que há de errado comigo?”
Ele: “Por que eu precisaria de uma resposta inteligente? Talvez eu só precise de um empurrão”
Ela: “Porque eu sinto que sei muito pouco sobre o que me incomoda. E quando o sei muito, perco tempo demais tentando entender como o mundo funciona em cima do que eu sinto”
Não terminamos essa conversa. O docs voltou a ficar em branco. Mas sinto falta.
