Braços

Ana Clara Medeiros

Espero que você enxergue, mesmo que ao longe, a estrutura que eu, resguardada de duas ou três inconveniências, estendo para ti. Te peço calma, que não se deixe levar pela cruzada do rio, que una tão poeticamente o rastro tremido com a água que polui. Te digo: estou aqui para ti, minha estrutura é de pele e osso, é meu braço, eu tenho duas pontes porcento própria, não há poluição em minhas cicatrizes, esta voz que declara te dizer profundo: e você as escuta? são coisas grandiosas, meu querido. Construamos nossas próprias geografias, tenha ímpeto! Precisas ditar somente que ainda tens vontade a atravessar meu corpo, a arrebatar com meu corpo a sua tormenta.

Eu sempre estive aqui, querido. Sempre fui sua sombra e acompanhei seus caminhos, como seguindo um santo, de casa até a tal ponte. Meu reflexo consta no rio, nota? Agarra-te, arrebatado por Jerusalém, agarra-te.

Lamento tanto, você era a próxima promessa de um exílio abrupto. Eu aceitaria teus lábios. Ainda apaixonada, posso beijar o chão do teu sangue para amadurecer a boca.

Agora só vejo a ruína das pontes.


Texto inspirado na prosa de Raphael Alves: https://medium.com/@raphaelvictoralves/a-ponte-2-2-7afb199fa06

Ana Clara Medeiros

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“Os símbolos, como se sabe, são intocáveis”.

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