Oi, Ana Clara. Vamos conversar?

Só queria te avisar que você não precisava ter surtado tanto

Ana Clara Barbosa
Feb 23, 2017 · 4 min read

Oi, Ana Clara. Essa aqui é uma carta que eu te enviaria se pudesse voltar no tempo. Sabe, eu te diria tantas coisas. Não que adiante pensar em nada disso agora, mudar o que aconteceu não te faria chegar onde chegou. E você tá bem, viu? As coisas ainda não deram certo 100%, mas você tem tentado lidar melhor com tudo. Tá funcionado bem. Na verdade, eu só queria te poupar de algumas noites de choro, algumas crises de ansiedade e algumas inseguranças bestas.

Sabe, Ana Clara, lembra daquele menino que você achou que era o amor da sua vida? Bom, ele não era. Com um tempo você descobriu que aquilo nem era amor. Lembra de toda aquelas complicações que te faziam acreditar que aquele rolo era diferente dos outros? Depois você percebeu que, na verdade, eram mancadas — da parte dele, é claro — e que você não tinha que se submeter a nada daquilo. No final, você viu que ele era um idiota e que aquela dificuldade toda foi só para você aprender a parar de ser otária. Você ainda não parou de ser otária, mas isso é porque você perdoa sempre e perdoa de verdade. Aliás, essa foi uma coisa que você aprendeu bem: a perdoar. Sua crise no momento é por perdoar demais. Virou hábito, viu? E você tem se sentido meio idiota por isso. Mas calma, a gente já tá resolvendo o problema. É que se eu pudesse te alertar, teria dito para você mandar meia dúzia de gente por aí ir tomar no cu. Elas mereciam.

E por falar nisso, você deveria ter se imposto mais. Essa sua coisa de querer ser a pessoa legal que sempre tá ok com tudo te fez mal. Você deu uns chiliques de um tempo para cá por isso. E não, não deu chilique com as pessoas que deveria. Foi mais uma coisa de “AI MEU DEUS, NÃO FALEM COMIGO SOBRE COISA SÉRIA QUE EU VOU COMEÇAR A CHORAR”. Chegou em um momento que você não conseguia mais lidar com um montão de coisa que ficou aí guardada. Para de subestimar suas dificuldades, isso não vai facilitar nada lá para frente. As pessoas não vão te amar menos só porque você fica puta com elas de vez em quando. É normal ter sentimentos bons e ruins, se controle menos.

E lembra daquela ansiedade de entrar na faculdade logo? Não precisava. Deu tudo certo. Você amou o seu curso. Foi para o bar, para algumas festas, fez uns trabalhos meia boca, alguns outros que você se orgulhou. Mas o que importa é que, todos os dias, quando sentava na sala de aula, você sentiu que estava fazendo a coisa certa. Você ainda não é colunista de nenhum jornal, e nem escreveu matérias tocantes que fizeram alguém chorar. Mas você acredita que tem potencial para tudo isso. Quem sabe um dia?

Ah, e para com essa mania boba de achar que você vai ficar sozinha para o resto da vida. Não precisa sair por aí bancando a independente que não precisa do amor de ninguém. Não é vergonha nenhuma se apaixonar, gostar de alguém, admitir que é uma delícia dormir de conchinha. Você entendeu tudo isso depois que começou a namorar. Sim, você conseguiu um namorado! E ele era do jeitinho que você sonhava quando fazia aquelas listas ditando qualidades essenciais em um cara. Você aprendeu que pessoas têm bagagens anteriores, mas que vale a pena respirar fundo e se esforçar para compreender algumas coisas que nem sempre parecem claras em um primeiro momento.

E aquele seu estágio que você odiava? Calma, cara. Você não vai ficar presa lá para o resto da vida. Era só um estágio. Você aprendeu isso depois que odiou o quarto, o quinto e o sexto trabalho. Teve uma hora que você percebeu que queria fazer alguma coisa por conta própria. Você ainda não criou coragem, mas é um plano. Daqui uns anos a gente escreve outra dessa para saber o que aconteceu.

Por fim, Ana Clara, queria dizer que aquela sua vontade de mudar o mundo ainda tá aí dentro. Tem dias que você chega em casa e chora, porque acha que tá tudo uma merda e que o ser humano não tem mais solução. Tem dias que você quer se enfiar em um buraco, porque não consegue acreditar que as pessoas podem ser tão egoístas e maldosas. Mas tem dias que você vê que se importar tanto assim é uma qualidade e que, sim, talvez você consiga fazer alguma coisa por alguém. Essa sua mania de querer salvar todo mundo ainda não foi embora, e você tem aprendido a usá-la ao seu favor.

Ana Clara Barbosa

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