Pais, entendam: nós não pensamos como vocês

Jantar de família. Todo mundo sentado à mesa. Começa o assunto sobre política. “Acredita que fulano votou na Dilma em 2014? Viu no que deu, né? Teimoso, falei que aquela vaca não sabe de nada”, diz a mãe decepcionada com o filho graduado, com bom emprego, mas que, infelizmente, vota no PT. E assim começa uma discussão sobre como fulano é um burro, e que certa é a família que vota no outro partido, aquele lá, que realmente quer mudar o Brasil.

Essa situação é hipotética, mas não quer dizer que ela não seja verdadeira. Já escutei várias histórias de amigos que discutiram com a família por causa de política, eu mesma presenciei várias conversas calorosas sobre o assunto. Os argumentos são sempre os mesmos: “vocês pensam assim, porque não pagam contas”, “quando vocês sustentarem uma casa, vocês vão ver como as coisas realmente são”, entre outros clichês usados para desqualificar nossos pensamentos.

Eu entendo que pode ser uma baita decepção criar filho para ascender economicamente, ter o carro do ano, o melhor emprego, o apartamento mais incrível e ver que, na verdade, ele prefere um trabalho que o faça feliz. Que abre mão do carro, porque não liga de andar de transporte público. Quis alugar um apartamento baratinho ali pelo centro, só para poder sair da casa dos pais. Vota em partidos de esquerda, porque, no fundo, sabe da sua condição de privilégio e vê que não precisa de um governo com políticas que favoreçam ainda mais os já favorecidos.

Deve ser horrível ver que o filho cresceu e optou por não olhar somente para si. Que escolheu pensar no próximo, que acredita em um ideal, que entende que o mundo é segregado e que ignorar este fato não torna o país que moramos em um lugar melhor. Nossa geração não se satisfaz com um emprego razoável, nós não queremos mais aceitar que a vida é trabalhar, acumular bens e constituir a família perfeita. Nós queremos ir além. Queremos uma vida melhor, mas não só para nós mesmos. Talvez a gente realmente mude de ideia quando tivermos nossos filhos, ou estivermos mais velhos. Ou talvez essa seja uma doença incurável, que vai nos acompanhar para sempre e, quem sabe, tenha um efeito positivo para a sociedade.

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