Sobre ser “bela, recatada e ‘do lar’”

À esquerda, a compositora e pianista alemã Clara Schumann e à direita a cientista polonesa Marie Curie.

Muitas pessoas estão sem entender o que incomoda tanto às mulheres — especialmente às mulheres ativas na luta feminista — em ver a reportagem da revista Veja sobre a esposa do vice-presidente Marcela Temer começar com o título de “bela, recatada e ‘do lar’”. Pensando nisso, escolhi fazer um paralelo com outras duas mulheres que foram esposas de homens muito famosos: a alemã Clara Schumann e a polonesa Marie Curie.

Clara Schumann, nascida Clara Wieck, foi uma virtuose no piano, o que quer dizer que foi uma das maiores intérpretes do romantismo, com uma técnica implacável e adorada em sua época. Começou muito cedo seus estudos, orientada por seu pai, e mais tarde casou-se com Robert Schumann, compositor do período romântico, para o desgosto do pai, que não queria o relacionamento dos dois. Ela era bela. E ela era recatada.

Como mandava a sociedade da época.

Marie Curie, por sua vez, foi uma grande cientista. Casada com Pierre Curie, os dois, junto com Henri Becquerel, ganharam, em 1903, o prêmio Nobel de Física e, depois, em 1911, ela, sozinha, ganhou o prêmio Nobel de Química. Tornou-se a primeira pessoa a ganhar dois prêmios Nobel em áreas diferentes e mantém-se até hoje como a única pessoa a ganhar dois prêmios Nobel em áreas científicas diferentes. Ela era bela.

E a sociedade da época mandava que ela fosse recatada e “do lar”.

Essas duas grandes mulheres viveram em épocas muito distintas. Clara pertencia ao século XIX, enquanto Marie ao século XX. E ambas estavam continuamente sob o olhar da sociedade do que era esperado delas. E sob o estigma de serem, talvez, as primeiras a ocuparem um lugar pertencente a homens.

Clara teve 8 gravidezes com Robert. Se em algum momento pensamos que a batalha contínua de conciliar trabalho e família é atual, é porque não ouvimos as histórias de mulheres como ela, que viajava em turnês por toda a Europa, sustentando a família com seus ganhos quando as crises depressivas de Robert o imobilizavam.

Mas de quantas compositoras da música erudita nós nos lembramos?

Marie também foi mãe. E foi, também, dona da cadeira de Física Geral de Sorbonne. Também tinha suas lutas diárias de viúva. Como Clara.

Mas de quantas cientistas nos lembramos de imediato?

E nem irei começar a falar de todas as santas da igreja católica que desafiaram a obrigação de casar para seguir a vida religiosa — que antes era apenas do homem! — nem de todas as mulheres anônimas que todo dia lutam bravamente contra as imposições da sociedade.

O problema não é com Marcela. É com o que a reportagem quer dizer.

É essa mesma reportagem que deixa implícito quem, como e o que a mulher deve ser na sociedade. Ela deve ser bela, recatada e do lar. Ao lançar mão desses adjetivos, mostrou-se o que a sociedade realmente quer: que existam mais Marcelas e menos Claras e Maries.

Porque Claras e Maries incomodam as vistas, ocupam lugares que não lhes pertencem e assumem papéis que obviamente só podem ser ocupados por homens. Ou de musicistas, ou de cientistas.

Ou de presidentes.

Não há dúvida nenhuma que a presidente Dilma Rousseff cometeu seus erros administrativos, não retiro aqui sua responsabilidade. Mas compará-la implicitamente com a esposa do vice-presidente é jogar no ar onde a sociedade ainda quer que a mulher esteja: atrás de um grande homem.

Não ao lado. Muito menos à frente. Atrás. Escondida. Discreta, recatada e do lar.

O feminismo não é sobre todas as mulheres serem obrigadas a ser Claras ou Maries. Ele é sobre elas terem poder de escolha. Podem ser o que bem quiserem. Podem ser belas, recatadas e do lar. Mas também podem não ser.

Colocar um padrão a ser seguido, mesmo que implicitamente, é ferir a honra dessa escolha e desvalorizar a luta de muitas mulheres. Incluindo a conquista que foi ter uma presidente mulher num país onde a maior parte do poder político continua na mão de homens.

Critiquem-na por suas escolhas administrativas. Por seus aliados, pelo que quiserem. Mas não a critiquem pelo seu cabelo, pelas suas roupas ou pela sua idade. Criticá-la por sua aparência é o mesmo que criticá-la por ser mulher.

(Reitero: nunca vi ninguém falando mal da gravata de Lula. Mas todos rechaçam os vestidos de Dilma.)

Por fim, deixo claro que não apoio críticas a Marcela. Ela fez suas escolhas dentro da sua liberdade. Mas também não desejo que todas as mulheres tenham que novamente, depois de tanta luta contra padrões, ser obrigadas a seguir o mesmo padrão, mesmo essa não sendo sua escolha.

A Liberdade de escolha é, no fim de tudo, a mãe de toda a luta e de todas as críticas.

(E devo dizer, também, de todos os memes.)