Amanda

Ana Clara Clareou Salles
Nov 4 · 2 min read

[esse texto pode conter gatilhos relacionados à violência contra a mulher]

Aconteceu ontem, Domingo 3/11.
Estava voltando da vendinha perto de casa com uns produtos de limpeza. Eu moro perto de duas comunidades e naquele momento estava passando numa travessa que fica bem próxima a uma delas.

Ouvi dois caras conversando na rua. Peguei o rabicho da conversa e o que escutei me deixou realmente assustada:
- Mano, daí a Amanda começou a fazer um puta escândalo, gritou que ia chamar a polícia e os vizinhos ouviram tudo.

O amigo continuava em silêncio.

- Daí mano, veio a polícia, foi mó gritaria. Mano, eu tô num ódio que cê nem sabe, tá ligado? Aquela filha da puta, vagabunda. Nossa mano, essa Amanda é um lixo, ela vai se ver comigo. Inferno de mulher, mano, vai tomar no cu, tá ligado! Ela que me aguarde!

Aquilo me gelou o sangue. Eu estava um pouco mais à frente deles e fiquei tão assustada que nem olhei pra trás. Não vi se o amigo concordou com a cabeça, mas ele tava mudo. Ou se falou alguma coisa eu não escutei, porque apertei o passo tamanho medo.

Mas a minha vontade na hora era de levantar a voz pra esse cara que deve se achar muito machão. Era de ter gravado a cara dele e levar pra polícia. "Oh, esse vagabundo tá ameaçando uma mina". Era de ter falado poucas e boas… enfim, de ter me manifestado de alguma maneira!

Só que num país cujo os casos de feminicídio aumentaram em 44% no primeiro semestre de 2019 e 52% das mulheres não denunciam a violência doméstica; num país onde a vítima é sempre desacreditada pela polícia, onde a colocam como culpada — "também, com essa roupa, queria o que?", "ninguém mandou casar com qualquer um", "tem que ver o que ela fez pra ter apanhado, né?" — e as delegacias especializadas nesse tipo de crime sequer tem pessoal preparado para isso… esse país me calou.

Engoli seco e fiquei quieta. Me resta apenas torcer pela integridade física e psicológica da Amanda. E todas nós mulheres, que diariamente sofremos algum tipo de violência.

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