Santiago

-Puta dia miserável esse.
-Nossa, pode crer. Olha aquelas árvores ali. Olha a ventania, imagina o gelo que não deve estar lá fora.

Meia hora depois.

-Alá, começou a chuviscar.
-Caralho, velho… que depressão, vontade de estar em casa vendo Netflix.

Coloco o fone de ouvido e escolho uma playlist que combina perfeitamente pruma tarde como essa. Melancolia para dias frios. “É essa aqui, solta o som DJ”.

-Oh Ana.
-Oi. Peraí.

Pauso a música e tiro o fone.

-Fala.
-Olha pela janela. Num tá parecendo Santiago?
-Nossa, sim!

Na mesma hora me vem à memória aqueles dias de Inverno que passei quando morava na capital chilena.

Me lembrei do esforço que eu precisava fazer pra sair da cama as 6 da manhã e encarar um hostel cheio de passageiro mal humorado e sem educação.

De ter que me encapotar toda pra encarar a rua. “Más abrigada que hija única”.

De como as pessoas andavam fechadas nelas mesmas, apertando o passo pra chegar mais rápido ao seu destino.

De encolher o corpo quando o vento frio soprava, sem dó nem piedade.

Do dia que levei meu melhor amigo pra passear por Providência e o clima estava igualzinho ao de hoje: cinza, nublado, úmido, frio.

-Ana, acho que vou meter o loko aqui e dar uma volta lá no Costanera.
-Hã, que? Ahn, hahahahaha, pode crer, tá igual mesmo. Aquele shopping é animal, né? No meu último dia lá eu subi até o 62o andar, puta visual!

-Alá, se liga. O céu tá abrindo, tá até saindo um pouco de sol.
-Ow, se você olhar direito, dá até pra ver a cordilheira nevada.
-Claro, mano. Olha ela ali.

Na mesma hora me vem à memória aqueles dias de Inverno que passei quando morava na capital chilena.

Me lembrei como Santiago ficava linda depois de um dia de chuva.

De como eu ficava animada em pedalar até o trabalho. “Nossa, mas nesse frio?” “Weon, mas olha que dia lindo!”

Me lembrei daquele céu azulzão, de brigadeiro, sem nenhuma nuvem no céu. As cores intensas, o horizonte limpo. Algo tão raro naquele lugar.

De como as pessoas estavam nitidamente mais felizes, aproveitando cada raio de sol como se já estivessem desejando a chegada da Primavera.

Me lembrei de subir ao topo do Santa Lucía sozinha e pedir para tirarem (mais) uma foto minha com as montanhas ao fundo.

De passar no moço do mote con huesillos e pedir un vaso, pero solo el jugo con el huesillo, sin el mote por favor.

Lembrei de me sentir grata, de me sentir feliz. Feliz por morar numa cidade onde, bastasse virar à esquina e eu dava de cara com ela… imponente, nevada, linda.

Cordilheira dos Andes/Julho de 2013.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade