Ana Clara Santos
Sep 8, 2018 · 2 min read

Nas ruas que andei sempre encontro um pouco de mim

Sempre me pergunto até onde vai o caminho de pessoas que não se conhecem: “Será que já esbarrei com aquele cara na rua? E aquela mulher? Será que é tia de alguém que vi na faculdade? O moço que acaba de atravessar a rua estava no mercado esses dias… Não sei como me lembro dessas coisas e esqueço de levar a roupa pra lavar. Enfim…”

“Aliás, outro dia encontrei um menino que fez a terceira série comigo, mas acho que ele não se lembra que pegou uma borracha minha emprestada e não me devolveu.”

Era segunda-feira, a noite estava quente e a avenida não tinha o movimento rotineiro, eram apenas pessoas passando em seus carros que davam vida ao asfalto.

O rádio tocava as últimas notícias. Alguém entrou na contramão, outros cinco ganharam na loteria, uma moça foi dar a luz sem saber que eram gêmeos, amanhã faria calor.

“Será que eu conheço alguém? Será que são parentes de alguém? Ontem vi uma grávida na praça…”

“O calor vai abaixar minha pressão e vou ter que ir mais cedo pra casa, isso sempre acontece… Já estava esquecendo que tenho consulta na sexta.”

O sinal abriu, mas tinha alguém atravessando. Parei. Buzina. “Já pensou se bate?” Ao menos teria mais um número de telefone na minha longa agenda de números inúteis.

O caminho continuou, eram apenas carros indo e vindo, de vez em quando um transeunte. Parei no semáforo:

“Ei! Oi! Você!”.

Olhei para o lado. Há quanto tempo não via aquele rosto, mas não me lembrava de onde.

“Oi! O sinal vai abrir, só me diz de onde eu te conheço, por favor.”

“Eu era sua chefe. Agora sou vó, minha filha não sabia que eram gêmeos”

Sorri. “Quem sabe um dia eu conheceria os bebês que nasceram juntos sem aviso prévio. A sobrinha daquela mulher estudou com minha prima no ensino médio.” Nem me pergunte como sei disso.

Finalmente estacionei na garagem, de onde eu acho que nunca devia ter saído.

Peguei o telefone. Tinha uma chamada não atendida, mas não ia retornar para um número desconhecido, já era tarde.

Tocou de novo.

“Oi! Ana?”

“Sim. Quem fala?”

“É Helena. Lembra de mim? Eu estudei com sua prima faz um tempo…”

“Oi! Lembro sim! Soube que sua prima teve um bebê, aliás dois.”

“Pois é… Estamos precisando de ajuda. Você podia fazer uma matéria naquele seu jornal, né? Eu soube que as pessoas sempre ajudam.”

“Ah! Posso sim, mas já estou em casa agora…”

“Desculpa por ligar tão tarde. Você não atendeu da outra vez.”

“Não precisa de desculpar, não vi porque tava no trânsito. Mas pode deixar que eu faço a matéria, sim.”

“Brigada, vai ajudar bastante.”

“Estamos aí pra isso! Amanhã te ligo pra pegar as informações certinho”

“Tá bem. Vou esperar.”

Silêncio.

Aliás, quanto tempo, não? Vamos marcar alguma coisa.”

“Pois é, muito tempo…Vamos marcar, sim!”

“A gente vai conversando. Boa noite.”

“Vamos, sim. Boa noite.”

Mas um número na agenda. Mais uma pauta pra amanhã. Mais um encontro que ficaria pendente.

O mundo segue girando.

    Ana Clara Santos

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    “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” (Machado de Assis)