Verbos

Ana Clara Santos
Sep 7, 2018 · 2 min read

Quinta-feira, 22 de junho de um ano qualquer

A grade da janela formava uma moldura enferrujada na luz alaranjada que pintava o céu. O dia já terminava e Ana continuava deitada admirando a passagem do tempo.

Também passou um passarinho, o carrinho de picolé na rua de baixo, os ponteiros do relógio e as memórias dos últimos dias.

Entre as aulas de leitura na biblioteca apertada, na qual só ela e mais dois realmente se interessavam pelos livros, a caminhada até em casa e as perguntas que não sabia responder, Ana sabia que gostava de palavras. A favorita era prolongar. Gostava de prolongar-se.

Prolongava palavras, abraços, sorrisos e discursos que ensaiava na frente do espelho; também prolongava dores e sofrimentos. Prolongar tornou-se verbo e permaneceu. Permanecer também era uma de suas palavras, pois, o prolongamento se torna vazio se não permanecer.

Naquele dia melancolicamente monótono ela se permitiu prolongar. Não se sabe se no pensamento ou no sentimento, apenas ficou ali, rememorando sua vida e cada pôr-do-sol que não viu.

O café estava frio, mas não queria levantar, já não fazia questão.

Seus pés sempre foram desajeitados. Costumava dizer que poderia até ser bonita, mas apenas até os joelhos, a natureza não foi generosa com ela, muito menos com seus pés. Ana os olhava esticados na parede: a sensação de sentir determinada parte do corpo e notar sua presença o torna diferente.

O dia ia se pondo tão devagar que ela pensou que talvez ele não quisesse ir de verdade, igual quando nos despedimos e ainda olhamos para atrás na esperança de um último aceno de mão ou um olhar disperso no meio da multidão. Ela também não queria que ele fosse, tudo devia prolongar-se.

O prolongamento de sua vida muitas vezes não lhe bastava, mas às vezes era tudo que lhe restava.

Há muito esqueceu dessas palavras, e do diário também. Esqueceu das aulas e dos livros que deixou para trás na antiga escola, esqueceu das pessoas que ficaram com eles e suas lembranças.

E, apesar de não se recordar da tarde em que procurou pelos verbos no dicionário depois de vê-los em algum lugar , ela prolongou-se e permaneceu. Sentiu-se completa.

Logo, a lua também permaneceria e se prolongaria pela noite, até que viesse o sol. Tinha dias que ela ficava ali, fosca no céu matinal. Talvez ela também gostasse de permanecer.

“Talvez nada precise permanecer ou se prolongar. Nem a gente, nem o mundo, nem memórias.”

Respirou.

Aos poucos viu a luz alaranjada dar lugar ao azul, que ia escurecendo devagar, sem pressa. Todos queriam prolongar momentos. Ela apenas olhava.

Um cachorro latiu. O carro passou. Gritaram na rua. Cheiro de janta.

A vida acontecia.

Ela permaneceu.

    Ana Clara Santos

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    “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” (Machado de Assis)