JANE AUSTEN FEZ 200 ANOS

Jane Austen fez 200 anos. Nesses tempos de quarta onda do feminismo, é preciso pensar Orgulho e Preconceito em termos menos míopes sobre o livro que é porta de entrada para a leitura de mulheres.

Escrever não era profissão para mulheres. O rangido da porta avisava quando alguém entrava na sala comum; a mesa de trabalho era pequena; as folhas de papel em tamanho pequeno cabiam na mesa e eram fáceis de esconder; a tinta era feita em casa, com frutos de carvalho, sulfato ferroso e goma arábica (é possível encontrar a receita no livro A Jane Austen Household Book With Martha Lloyd’s Recipes). Escrever não era profissão para mulheres e, no entanto, o que se vê em Orgulho e Preconceito não é a junção de uma mesa desconfortável, pouca tinta e muitas interrupções: os personagens como que flutuam no ar e nos atraem para si com uma força inescapável.

O livro é sobre o amor que nasce da troca entre iguais e se alimenta da tensão sexual pelo diálogo inteligente. Qualquer um sente a força e o prazer de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy enquanto discutem entre si no salão de Bingley e, por isso, é tão difícil explicar como essa cena é deliciosa.

Mas não é só isso, o livro encanta por suas descrições absolutamente concretas: Mr. Darcy possui 10 mil libras anuais; Elizabeth Bennet, junto com suas três irmãs, seu pai e sua mãe, vivem com 400 libras por ano, com essa fórmula, repetida muitas vezes ao longo da história são reveladas as possibilidades de vida de cada um dos dois. Como toda grande literatura, o texto também está cheio de armadilhas. Sua frase mais famosa não é nenhum pouco literal, pois não é nenhuma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, em posse de grande fortuna, deve estar procurando uma esposa. Agora, uma MULHER, solteira e sem posses, essa sim, deve estar procurando um marido, verdade universalmente reconhecida que Elizabeth Bennet não cansa de por à prova.

E ainda, todo o universo em que se passa a história é feminino — doméstico, em que os tempos se passam de jantar em jantar e de festa em festa — , mundo que normalmente é esquecido e tratado como pouco relevante. Assim, ainda que esteja fechado em um grupo bastante específico de mulheres, brancas e da aristocracia britânica (baixa, no caso das irmãs Bennet e alta no caso de Mr. Darcy e Lady Catherine de Bourgh), o livro traz a memória e a visão feminina do mundo.

O estilo do livro apresenta, entretanto, alguns desafios para os dias de hoje. Por exemplo, não enxergamos no pedido de casamento (e descrição da mulher ideal) de Mr. Collins o manual de boas maneiras de James Fordyce, Sermons to a Young Woman, e não ouvimos o grito de Mary Wollstonecraft na recusa de Elizabeth quando ela afirma ser uma criatura racional. Essas referências se perderam com o passar do tempo, mas formam a alma do livro (o que só revela a importância de ler boas edições, especialmente, as que vem cheias de comentários). Pensar Orgulho e Preconceito como romance de mulherzinha, “chick lit”, uma simples história de amor ou um drama sobre o casamento em que no final todas caímos de amor por Mr. Darcy é ceder mais uma vez ao machismo nosso de cada dia. Mudemos de ideia, Jane Austen já morreu há 200 anos.

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Ana Clara Klein Pegorim
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