O maior abuso

Ana Clara Melo
Aug 22, 2017 · 1 min read

Todos os dias, quando se é mulher, inconscientemente há diversos aprendizados desagradáveis sendo postos em prática e arquivados em cada gesto que fazemos.

Chega a ser um abuso comigo mesma. O número de vezes que não visto aquela roupa para evitar olhares. A preocupação da medida certa de distância. Sorriso demais, sorriso de menos. Brava. Sincera demais. Rotina de aprender que, se alguém está muito perto, saia, fuja. De acordar com medo do metrô estar cheio, não por ser desconfortável, mas por ficar próxima demais das pessoas. Não saber se estão sendo simpáticos ou flertando.

Como uma pessoa mais introvertida, sinto um desconforto enorme em lugares cheios. E mais do que ambientes confortáveis, busco o silêncio confortável dos outros.

Sei que a generalização de ser mulher irrita muitos. Mas, quando seu menor medo é morrer num desastre qualquer, as coisas mudam de figura. A todo momento duvidar de você mesma, ultrapassando sanidade, autoconfiança ou qualquer coisa.

Nossa mente caminha lado a lado com abusos. Escura e perigosa, ela nos faz temer, silenciar, justificar. Nunca acreditamos no que vivemos — dói demais. O silêncio é o que mais incomoda. A consciência de saber que sua voz, não importa o quão alto grite, não importa o quanto chore, não vai ser relevante. Culpando-se e carregando o fardo da vergonha, que nem deveria lhe caber, em cada passo que almeja. O silêncio que cala e mata. O silêncio que pesa tanto que até esquecemos o motivo do silêncio.

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    Ana Clara Melo

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