O quadro

Capítulo I

A cidade estava chuvosa e escurecida na tarde de sábado que Tomás Rodriguez escolhera para ir à exposição de obras de arte ditas amaldiçoadas no Museu de Arte Hichiari. Ainda assim, o clima não impediu o apreciador, já que ele há muito tempo ansiava pela exposição, que vinha sendo anunciada há meses.

Uma moça de muito boa aparência que entregava panfletos estava à porta do museu quando Tomás saltara de seu táxi com seu sobretudo e sua pasta na cabeça, às pressas, temendo perder o começo da exposição. Pela pressa, passou rapidamente pela moça, que lhe estendeu um panfleto o qual ele pegou sem olhar, enfiando no bolso do sobretudo e finalmente se endireitando para aparentar mais respeitável que um homem de meia idade estabanado e sem modos.

Um rapaz jovem falava à plateia atenta, com um discurso aparentemente sensacionalista, sobre as obras expostas na exposição. Tomás se infiltrou no grupo para que pudesse ouvir cada detalhe, pois ainda que não acreditasse naquelas histórias, era fã de historias de horror sensacionalistas.

Não demorou muito até que chegou a vez das obras do pintor Giovanni Bragolin, famosos por supostas mensagens subliminares escondidas nos quadros das crianças machucadas chorando. O Sr. Rodriguez era apaixonado pelo mistério escondido naqueles quadros e pela sutileza de Bragolin ao retratar os machucados — não que ele fosse simpatizante com a violência às crianças, de modo algum, pelo contrário, era o pai mais apaixonado pelo seu garotinho de 4 anos de idade — de modo que não perdeu uma vírgula desde que o jovem começara a falar:

- Finalmente chegamos aos famosos quadros de Giovanni Bragolin! Giovanni foi um pintor italiano que ficou famoso nas décadas de 70 e 80, ao pintar quadros de crianças chorando, que foram vendidos em vários lugares do mundo. As pinturas apresentam várias crianças chorosas olhando para frente. São atribuídos a seus quadros, principalmente os das crianças chorando, mensagens subliminares ligadas ao satanismo ou a um suposto pacto com o diabo. O boato sustenta que Bragolin, alguns anos atrás, pediu para que quem tivesse um desses quadros em casa que os queimasse, pois ele não aguentava mais ver o sofrimento das pessoas, e alegava que as crianças nos quadros eram crianças reais, mortas, levadas para Satã. Bombeiros relataram que, em incêndios ocorridos nos anos 70, os quadros não haviam sido queimados como o resto das casas. O que vocês acham? Só podemos supor que: os quadros são de origem satânica! — E todos na plateia faziam seus “ooh” e tudo que se escutava eram risinhos e “nossa, que horror”.

Ao fim da exposição, Tomás resolveu levar um dos quadros, já que não acreditava nos boatos e admirava o trabalho do pintor. Porém, o discurso lhe fez pensar sobre o que aconteceria se as lendas fossem reais, mas ignorou — aqueles pensamentos não faziam sentido.

Capítulo II

- Amor? Cheguei da exposição! — gritava Tomás ao chegar a casa com o quadro de baixo do sobretudo de modo à protege-lo da chuva que ainda não havia dado trégua.

- Estou aqui querido, na sala com o Henrique!

Tomás rapidamente se dirige ao cômodo e dá um beijo carinhoso na testa de Maria, sua esposa, e logo Henrique corre em direção aos braços do pai.

- Papai, papai! Olhe o desenho que a Sra. Lopez pediu para a gente fazer hoje na aula! Desenhei o senhor, a mamãe e eu! — dizia Henrique todo exaltado com seu desenho de linhas mal traçadas que, para ele, era sua primeira obra de arte.

Papai pega o desenho ternamente e, sem entender muito, diz que está lindo — como todos os pais fazem.

O desenho do seu filho o lembra do quadro que comprou mais cedo, na exposição, e ele se dirige à Maria:

- Ah, amor! Quase que esqueço: comprei um quadro do Bragolin, posso pendurar na sala de estar?

- Do Bragolin? Nossa, querido! Aqueles quadros são tão pesados para a sala de estar, não acha? Ainda mais por causa do Henrique… Qual você comprou?

- Aquele da menina encostada na parede chorando.

- Sei… Onde está? Vamos achar um lugar para mais uma aquisição esquisita sua! Não sei como você consegue gostar dessas coisas estranhas…

- Ora querida, é um hobby. Você tem seus milhares de canetas, não tem? — Enquanto conversavam, Maria se dirigia à sala de jogos.

— -

Tomás apaixonara-se por Maria pela sua simplicidade. Ainda que eles tivessem todo o dinheiro do mundo, o hobby daquela mulher não era comprar roupas, sapatos, nem muito menos produtos de cabelo e maquiagem, mas colecionar canetas e objetos de escritório. Maria era uma professora de Antropologia dedicadíssima à sua carreira, e não abria mão da organização do seu local de trabalho.

Na sala de jogos, Maria analisava cuidadosamente onde se encaixaria aquele quadro –segundo ela — horroroso.

- Bom… Que seja. Aqui deve estar bom, não acha? — E ela o suspendia na parede atrás da sinuca, ao lado do bar. — A sala já tem esse ar sombrio por causa das paredes escuras, e já que o Henrique quase não entra aqui, achei que seria ideal. O que achas?

- O que estiver bom para você está ótimo para mim. — Diz Tomás a fim de agradar sua esposa e lhe dá um beijo rápido nos lábios.

- Hum… Babão! — ela diz em meio a risos.

- Eu? De modo algum! — diz ele fazendo gracejos — Me dê, vou pendurar esse quadro de uma vez. Cadê o Henrique? Está muito quieto, com certeza deve estar aprontando…

Enquanto Maria vai atrás de seu filho, Tomás se dirige à garagem para pegar o martelo e o prego.

A luz pisca.

Tomás rapidamente sente um calafrio, mas antes de ficar com medo esfrega a mão no braço arrepiado e logo tira qualquer pensamento que não seja bem vindo de sua cabeça. Ele pensa: “Era só o que me faltava, o sistema elétrico me pregando peças justo quando estou indo à garagem sozinho” e ri de si mesmo quase assustado com um absurdo como um quadro amaldiçoado.

De volta à sala de jogos, se prepara para furar a parede com o prego e…

- Aiiiii! Maldito prego! Maria! Por favor, traga a caixa de primeiros socorros! — Grita.

- O que houve meu bem? Que desespero é este?

- Este maldito prego me furou! Tem band-aid aí?

- Deixa de manha! — ela ri — Me dê esse dedo.

Maria pega a mão de seu marido e faz um rápido curativo com muito jeito, e ele finalmente termina de pregar o quadro na parede.

Tomás se afasta para olhar de longe o aspecto sombrio da sala de jogos que ele adora, e diz para Maria:

- Pronto, está combinando com a sala, não acha?

- Claro… Só não digo que está perfeito… — diz olhando meio torto para o quadro que já não lhe agrada.

- Chame o Henrique, — diz ela — o jantar deve estar pronto. Coloquei uma lasanha pré-cozida no forno.

— -

Quando Tomás vai procurar seu pequeno, o encontra parado à porta da sala de jogos, olhando fixamente para o quadro feio da parede.

- Papai, por que a bebê está triste? Ela é bonita, gosto dela…

Tomás, sem saber muito que dizer ao filho — já que jamais diria a real explicação do choro da garotinha — improvisa:

- Filho, infelizmente nem todas as crianças são felizes o tempo todo. Esse quadro serve pra lembrar a todos nós que devemos cuidar das nossas criancinhas para que elas não fiquem tristes que nem a bebê. — E foi o melhor que ele pôde fazer para não contar ao filho que, na verdade, a criancinha estava chorando sua morte.

- Ah… Nós somos muito felizes, né papai?

- Claro que somos! — Tomás sorri para o filho.

- Obrigada papai! — diz Henrique abraçando o pai — “Vamo” jantar? “Tô” com fome!

- Vamos sim, também estou. Sua mãe fez uma lasanha que deve estar deliciosa e eu não posso esperar para provar! — Dito isso, pega Henrique pela cintura o carrega fazendo “aviãozinho” até à sala de jantar.

Capítulo III

- Já pode acordar, bela adormecida! — diz Maria enquanto puxa as cortinas da janela rapidamente.

- O que…? Que horas são? — Tomás olha o relógio de cabeceira no qual está marcado 7:00 — Meu Deus! Já é segunda! Vou me atrasar para o trabalho!

De repente, um estrondo fortíssimo se dá no andar de baixo, e Maria corre para ver o que era. Tomás levanta da cama com tudo e corre atrás.

- Que susto! — Maria estava à porta da sala de jogos — Achei que fosse alguma coisa, foi só o quadro que caiu. Também, precisava dessa moldura tão pesada? Acho que você não é muito bom em pendurar quadros, querido. — diz Maria, caçoando do seu marido.

- Como assim? Eu tenho certeza que ontem ele estava bem preso. Que estranho…

- Bom… Corra para o banho se não quiser se atrasar, né? Já fiz seu café.

Na mesa do café, Tomás não deixa de pensar no quadro. Ele repassa uma, duas, três, diversas vezes e tem certeza que o quadro não estava frouxo. Não, ele colocou o prego exatamente como tinha de colocar, além de ter checado depois, só para não sobrar dúvidas.

De qualquer forma, procura não pensar demais, e acelera para chegar a tempo ao trabalho.

- Tchau querido!

- Tchau papai!

- Tchau meus amores, até a noite!

E Tomás saiu para o trabalho.

Maria passaria a manhã com o filho, já que ele só ia à creche pela tarde — que era o horário que ela lecionava na UELS — Universidade Estadual de Lago Seco.

- Bem, aqui vamos nós meu pequeno! Qual vai ser o seu café da manhã moço? “Gagau” de maçã, banana ou de… Hum… Frutas vermelhas? — Maria diz sorrindo docemente para o filho.

- “Nanana”, “nanana”! — Henrique grita, como se fosse a coisa mais gostosa do mundo que ele estivesse prestes a comer.

- Tudo bem, vamos lá! — Maria diz pegando o liquidificador para preparar o mingau do seu pequeno.

-

Maria jamais deixaria transparecer a seu filho o calafrio que estava sentindo naquela hora, mesmo sem saber muito bem o porquê. Desde que fora mais cedo à sala de jogos, notara algo de estranho na atmosfera daquela casa, mas preferira ignorar, já que estava certa de que fantasmas ou demônios não existiam.

Porém o que ela não sabia era que eles estavam lá, as criancinhas choronas estavam lá assistindo ela e o seu querido Henrique tomar seu feliz café-da-manhã, cada uma desejando como nunca estar no lugar do seu bebê. As crianças haviam sido maltratadas, levadas para Satã e ainda retratadas para a eternidade nos quadros pelo Giovanni Bragolin. O que pouquíssimas pessoas sabiam, na realidade. Muitos atribuíram sentidos errôneos às maldições, alegando ser obra do diabo, mas a verdade era que aquelas crianças estavam transtornadas de raiva, por tudo que passaram e pelo desrespeito com suas imagens tristes e indefesas. Aqueles espíritos, que já vagavam há muito tempo em busca de aconchego, reconhecimento e principalmente proteção, estavam frustrados por só conseguirem medo, repudia e chacotas de lendas que criaram para seus quadros, além de estarem presas a Satã. Com os Rodriguez não seria diferente. Eles não parariam até serem ouvidos.

Henrique não havia esquecido a menininha triste e chorona do quadro, quando ele perguntou à sua mãe:

- Mamãe, papai disse que nem todas as crianças são felizes como eu… Eu queria que papai tivesse um quadro de uma menininha feliz, seria mais bonito.

- Ora Henrique, aquela menininha não existe. É só uma pintura… Não fique triste por ela. Que tal tirarmos uma foto sua bem feliz e colocar na sala de estar? Assim todos podem ver o menino lindo e feliz que você é!

Ao ouvirem isso, os espíritos das crianças chorosas não se contiveram de raiva, o que Satã adorou, na verdade. A raiva das pobres crianças foi de uma intensidade tão devastadora que todas as bocas do fogão se abriram lentamente, soltando um gás altamente inflamável. Uma das crianças, Lucy, pousou a pequena mão sobre o isqueiro ao lado do fogão e, sem hesitar, o acendeu. A explosão foi instantânea. Restava a Maria e Henrique, como dois anjos que eram, velar por aquelas crianças tristes e sem rumo que causaram suas mortes, e foi o que eles fizeram.

Quanto a Tomás, nunca mais quis saber de obras amaldiçoadas em sua vida. Na realidade, o pobre homem não tivera mais vida, caíra no precipício da loucura por perder seus únicos amores. Infelizmente para ele e felizmente para as crianças, Maria e Henrique foram os anjos que resgataram essas crianças do tormento do inferno, depois de muita luta lá por cima.


"Abandonei" o blog por quase um mês por motivos de: em um futuro não tão breve assim haverão surpresas literárias! Mas, voltei! À medida do possível postarei aqui mais alguns contos e reflexões… Até a próxima! :)