O Conar e o desserviço à sociedade

ou “todo dia um publicitário em negação passando vergonha”

Na semana passada o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) lançou os seguintes filmes, com a seguinte dinâmica: “se você gosta de X olhe para a direita, se você gosta de Y olhe para a esquerda.

descrição da imagem: print do comercial que mostra duas imagens num fundo preto. Na imagem esquerda há uma mesa de café da manhã e um casal hétero (homem e mulher) se beijando. Na imagem da direita é o mesmo cenário, mesma cena, com um casal homossexual (mulher e mulher). Acima da imagem da esquerda há uma seta cinza.

A dinâmica seria até aceitável se os elementos de comparação não fossem representações da diversidade humana.

E, sendo assim, provou por A + B o quanto a gente ainda tem que melhorar como humanidade e profissionais de comunicação.

Colocar a diversidade (seja ela de corpos, de gênero, de orientação sexual, de raça, de etnia ou funcionalidade — perceba que a deficiência nem sequer apareceu em nenhum dos exemplos) como “gosto pessoal” é comprovar o atestado de negação do diverso e “lavar as mãos” da responsabilidade de falar com todos os públicos — e não “AGRADAR” como diz o texto.

“Já pensou se todo comercial tivesse que ter opções para agradar todo mundo?”

Veja bem, Conar, a propaganda não tem que AGRADAR a todo mundo. Quem gosta de comercial é publicitário. A propaganda tem sim que REPRESENTAR todo mundo, e assim reconhecer o maior número de possíveis consumidores. E isso é bem diferente. (Aliás, você conhece algum cliente ou marca que queira vender menos? Eu também não.)

Perceba, Conar, que a diversidade não é um questão de “escolher olhar” e sim uma questão de “é um fato, isso existe. ponto”. Todas as pessoas diferentes que o filme mostra com o ar de deboche sempre existiram e sempre consumiram, a diferença é que agora — finalmente! — elas estão aparecendo do lado de dentro da tela. Aos poucos, aos trancos e barrancos, tentando aqui e corrigindo ali, mas aparecendo.

Enquanto grandes nomes do mercado se recusam a aceitar esse fato, era de se esperar que o conselho de regulamentação ajudasse nessa caminhada. Mas nesse caso está andando para trás.

Eu acredito em ir pra frente. Vamos?