Racismo, Lesbofobia e Mercado de trabalho

Imagem do Pinterest e a legenda fui eu que fiz

Começo este texto com a seguinte pergunta: onde estão as pretas sapatão no mercado de trabalho? Quantas companheiras de trabalho vocês tem que são pretas e sapatão? Quantas são “assumidas”? Quantas estão em cargos de chefia? Quantas estão empregadas? Quantas estão aposentadas?

Além de enfrentarmos o racismo no mercado de trabalhos, temos que lidar com a lesbofobia e quanto mais longe da dita “feminilidade heteronormativa” mais longe de um emprego vamos ficar e mais a margem da sociedade também.

Mas o que seria essa tal de “feminilidade heteronormativa” ? Explicando resumidamente: são as sapatonas que são consideradas “femininas”, as que “parecem mulher” e usam “ roupa de mulher”. Quem não ta dentro desse padrão acaba tendo o corpo criminalizados e consequentemente está mais longe de conseguir um emprego porque as empresas são lesbofóbicas.

A maioria das minhas amigas pretas sapatonas estão desempregadas, depressivas, sem dinheiro e sem ter como sair de casa. Eu mesma me incluo nesse grupo. Acabamos achando que a culpa é nossa mas na real a culpa é do racismo e da lesbofobia — que são partes estruturantes da sociedade patriarcal e capitalista onde vivemos.

Diariamente temos as nossas capacidades testadas e questionadas o tempo todo. Precisamos trabalhar sempre na máxima potência e mil vezes mais do que uma mulher hetero (por exemplo) para mostrarmos que somos capazes. Mas as vezes é cansativo ficar tendo que provar o tempo todo que sabemos fazer o que falamos que sabemos fazer.

Somos apagadas das nossas profissões, da saúde pública, da política… da sociedade no geral. O desemprego entre as pretas sapatão é mais uma arma da sociedade Patriarcal/Hetero/Branca para nos matar, nos enlouquecer e nos fazer não existir.

Diversas vezes o meu currículo era aceito para a entrevista de emprego mas quando eu chegava lá e os entrevistadores descobriam que eu sou preta sapatão, na mesma hora meu currículo não fazia o dito “ perfil da vaga”. E nós sabemos que essa palavra contém inúmeros preconceitos e não apenas que você não preenche o perfil desejado né. Esse perfil desejado é hetero, branco e magro na medida do possível.

E isso não acontece apenas em locais “direitosos”. A esquerda também protagoniza isso todo dia — e talvez machuque mais. Já trabalhei em um lugar, por exemplo, que quase nunca dava oportunidades de trabalho para mulheres brancas hetero, imagina para pretas sapatão. Enquanto eu estava lá, apenas homens cis brancos e heteros recebiam os trabalhos e eram vangloriados por isso. Eles recebiam muito bem para fazer isso enquanto meu trabalho não era valorizado e eu ganhava muito mal.

Muitas de nós acabam entrando no trabalho informal e consequentemente sendo exploradas sem nenhum direito trabalhistas. Fora os racismos, machismos e lesbofobias que acabamos tendo que aguentar porque precisamos daquele emprego e sabemos que outro lugar não irá nos aceitar.

Racismo, Lesbofobia e Mercado de trabalho é um assunto que precisa ser pautado pelos movimentos de lésbicas e faz parte da nossa luta diária pela sobrevivência. Irei encerrar por aqui. Desejo muita força e amor para as pretas sapatão que estejam na situação de desemprego. Nunca ache que a culpa é sua e que você não é capaz, nós mulheres pretas sapatão somos potências, somos maravilhosas. Até a próxima.