Se fere minha existência, serei resistência!

Carta aberta a todas as sapatonas que conheço e que não conheço também.

E a todas as outras pessoas LGBT.

Uma vez vi um post de Facebook que dizia
“ se você não tá com medo, você não entendeu nada”. 
Discordo dele em partes, porque é possível tá com medo e não está entendendo nada, afinal essa conjuntura política atual tá complicada e as vezes fica difícil digerir e entender o que tá rolando.
Se você tá com medo e não tá entendendo nada, isso é normal. 
Algumas coisas são criadas para a gente não entender.
E o medo se faz presente nas nossas vidas desde sempre né? 
Medo de andar de mãos dadas com nossas companheiras, medo da nossa familia descobrir que aquela nossa “amiga” é mais do que “amiga”, medo de descobrirem no trabalho que somos sapatão e nos demitirem por isso, medo de andar sozinha a noite na rua, medo de diversas formas. 
Esse medo, pode provocar até empatia nas pessoas heterossexuais mas elas nunca vão conseguir entender o que é ter medo de existir, principalmente em tempos como esse que estamos vivendo. E isso não deveria ser naturalizado.
Esse medo vem principalmente porque nossos corpos são corpos políticos, a gente não precisa de adesivo do “Ele Não “ para ser oposição, nossos corpos já mostram isso por nós antes mesmo da gente abrir a boca para falar algo, mesmo que você por uma razão doida da vida não seja do povo do Ele Não ( o que torço para não ser verdade).
Não deveria ser natural a gente sentir medo de amar, sentir medo de existir, sentir medo de ser simplesmente quem somos. 
Tenho notado minhas amigas sem esperança de que as coisas irão melhorar e até cogitando a volta para o armário caso o pior venha a acontecer: um candidato fascista assumindo a presidência do país.
Já passei várias noites sem dormir e tendo pesadelos por causa disso, já chorei, já tentei bolar mil planos e já senti muito medo. 
Mas me recuperei pensando na minha ancestralidade e em todas as sapatonas que estão comigo somando força em rede contra essa ameaça que vem na nossa direção. 
Não sei se as coisas que tô falando fazem sentido para vocês mas queria dizer que vocês não estão sozinhas, mesmo que a gente não se conheça, você não está sozinha. 
A gente se move na coletividade que soma força na resistência contra aquilo que gere nossa existência. 
Não perca a esperança, se a gente chegou até aqui, vamos muita além. 
Tentam nos enterrar mas somos sementes!

Com afeto 
Ana C.