É hoje

Ela acorda às 6h30, o despertador só tocará às 7h30, ela tenta voltar a dormir. Sorri. Será impossível voltar a dormir agora que se lembrou "é hoje!". Suspirou pronfundamente, afundou o corpo junto ao travesseiro, fez um carinho nos braços e voltou a cochilar, um sono leve, sem muitas pretenções. Na mente imagina e planeja a roupa que irá usar hoje, como será seu dia, sem muita demora as imagens ficam distorcidas e personagens aleatórios surgem. Ela está sonhando.

O despertador toca, dessa vez como tantas outras vezes não foi tão agradável. Ele a assustou. Tentou recuperar o ar. A cabeça pesou. Colocou a mão entre a testa e o cabelo numa tentativa de aliviar o abrir dos olhos. Piscou quatro vezes. Abriu um pouco a boca, estava seca. Olhou para o relógio, desligou o toque. Levantou sem muita pressa. Tomou água com algumas pílulas que estavam na cômoda, o habitual pós-acordar.

Sorriu. Devagar retirou o pijama. Adorou sua pele naquele dia. Estava macia e sensível ao toque. Não se cansava de sorrir. É hoje.

Entrou no box do banheiro, ligou o chuveiro. A água estava muito fria. Trocou a temperatura da água, morna. A água morna se deu melhor com a sua pele sensível naquele dia especial. Lavou os cabelos na água morna, mesmo tendo ouvido falar que aquilo não faria bem para os cabelos. Pouco se importou. Sem muito esforço, habitualmente, prestou atenção em cada parte do corpo que passava o sabonete. Cada parte importava. Era de praxe que limpasse cada partezinha, mesmo as mais difíceis que na infância eram limpas apenas quando sua mãe a repreendia. Um banho satisfatório, agora, era quando tudo, exatamente tudo, estava impecavelmente limpo. Ela usava três tipos de sabonete e dois tipos de creme para o cabelo pós-lavagem, além de uma bucha especial para os pés, outra para o rosto e outra para o restante do corpo. Mesmo assim, seus banhos não eram demorados. Cerca de 10 ou 15 minutos era suficientes.

Ela saiu.

Escovou os dentes com prazer. a menta da pasta ajudava na sensação de limpeza. Estava finalmente em seu momento de perfeição. Aquilo lhe animaria para começar o dia. Mas ela já estava animada. Diferentemente de outros dias, estava com um humor incrível, nem a raiva do despertador a incomodou.

Enxugou o corpo ao mesmo tempo que alongava um pouco o corpo. Largou a toalha pela cama, logo iria tirá-la dali, sem pressa, por favor. Em seguida abriu a cômoda e o guarda roupa. Analisou as peças de roupa. Sem muita demora escolheu um vestido simples, uma calcinha confortável e um sutiã que lhe fosse útil na hora de correr atrás do ônibus ou se algum infortúnio a obrigasse a se movimentar mais do que gostaria. "Uma garota independente sempre deve estar bem prevenida." Sorriu ao arquitetar essa fala antiquada. Vestiu-se. Penteou os cabelos, hidratou com alguns cremes simples e os deixou para secar com o tempo, odiava secadores.

Em 30min estava pronta para começar o dia. Tomou um copo de iogurte com uma banana e em 7min saiu de casa. Era hoje.

Chegou ao trabalho sem muita demora. ninguém percebeu diferença alguma ou reparou que em seu corpo repousava ao menos sete fragrâncias de seis produtos diferentes que misturavam ao seu próprio cheiro. Ninguém respondeu ao seu bom dia. Ela não se incomodou.

Eram 9h e já havia uma lista de tarefas a serem cumpridas. Tentou organizar seu tempo. Parou de sorrir. Esqueceu-se por alguns momentos que era hoje. Estava focada em seu trabalho.

Ao meio dia consultou o celular. Uma mensagem carinhosa de bom dia a fez relembrar o motivo daquele dia estar tão agradável e de sua pele estar tão brilhosa e macia. Era ele.

Respondeu à mensagem com outro bom dia brevemente. Voltou ao trabalho, mas não conseguia se concentrar totalmente. Sorria. Outra mensagem. E outra. Outra.

Ela as respondeu sem muita demora.

Era hoje.

Terminou metade dos afazeres da lista, não estava em um dia muito produtivo. Ninguém iria se importar, nem sabiam que estava ali. Levantou-se. Saiu mais cedo.

Eram 18h30 estava em casa no horário que deveria sair do trabalho. Tomou outro banho. Precisava ser rápida. Arrumou-se depressa: banho, maquiagem, cabelo, roupa, calçado, perfume, bolsa. Beliscou algo na geladeira.

Um pouco de decepção ao descer as escadas, os novos calçados eram absurdamente desconfortáveis. Subiu, trocou pelos seus favoritos.

Estava começando suar. Estava nervosa.

Caminhou por algumas quadras. O telefone não tocou em nenhum momento.

Estava tranquila.

Sorriu.

Chegou a um restaurante e, automaticamente, tomou o celular à mão. Enviou uma mensagem "onde está você?". A resposta demorou cerca de dez minutos. Ela já estava acomodada a uma mesa, constrangida por estar sozinha.

"Estou a caminho, desculpe, tive um imprevisto."

Ela só queria saber que tipo de imprevisto o faria se atrasar vinte minutos. Bom, ele pode ter voltado para trocar de calçados também, pensou.

Mais um tempo.

Ele chega, esbaforido. Ela acena. O reconheceu rapidamente. Afinal de contas estava atenta desde que chegou.

Eles se cumprimentaram e se apresentaram.

"Desculpa dar essa mancada logo na primeira vez que nos vemos. Normalmente eu não me atraso."

"Tudo bem! Eu também me atrasei uns dez minutos."

"Mas não meia hora, né!"

Ela sorriu, estava muito nervosa, suas mãos tremiam. Ele não percebeu. Ela parecia distante e um tanto certinha demais.

Terminaram o jantar. Caminharam até o apartamento dele, aparentemente, era bem mais perto do restaurante do que a casa dela. Ela tirou os sapatos na entrada imitando-o. Tudo parecia estar em perfeita desordem. Ela sentiu uma necessidade estranha de ir embora, achou que era nervosismo.

Ele se aproximou. A beijou. Tocou em seus ombros. Suspirou. Notou as difíceis combinações de fragrância na pele dela. Sentiu a maciez. Ela está incrível hoje.

Os dois sentaram no sofá, se beijaram. Se tocaram. Com alguma demora ele desceu as mãos e repousou nas coxas dela. As coisas começaram a ficar desconfortáveis ali. Ela não sabe se permite ou vai embora, decide ficar um pouco mais. Ele adianta seus dedos delicadamente para entre suas coxas. Ele pergunta, pela primeira vez, se poderia continuar. Ela o afasta devagar e sorri.

Tira a camisa, a faz tocar em sua pele sentir como ele também está nervoso por estar com ela. Mas ela parece não entender e não corresponde às expectativas. Ele pede desculpas por estar indo tão depressa, parece que se dá conta de que o momento pode ficar desconfortável e confuso a qualquer momento. Coloca sua camisa de volta. Olha pra ela sem palavras.

Ela fica desnorteada. Parece ter sido uma grande decepção. Ele não parecia entendê-la. Ela estava confusa.

Se sentiu forçada a se explicar.

Eles tentam mais uma vez. As mãos dele permanecem nas costas dela e no pescoço. Se beijam, nenhuma palavra.

Ela se afasta, sorri. Seus olhos brilham. Finalmente deu certo. Talvez agora ele poderia avançar mais.

Ele a elogia, eles se despedem. Ela perdeu a coragem de ir além.

Vai pra casa, chateada por não ter tentando. Teria sido uma boa chance. Mas assim, de primeira, ele mal a conhecia.

Sua pele tinha voltado ao normal quando chegou em casa. Estava desanimada.

Tomou mais um banho, dessa vez com apenas dois sabonetes, não lavou os cabelos, nem usou as buxas. Escovou os dentes.

Deitou-se na cama molhada, esqueceu-se de estender a toalha antes de sair.

Mais uma noite sozinha.

Dormiu. Estava exausta.

Acordou e continuou sua rotina. Só que sem o sorriso. Não era hoje. Não havia nada para hoje. A pele estava menos sensível. Piscou algumas vez para se manter acordada em sua realidade.

Disse bom dia no trabalho e ninguém respondeu como de hábito. Finalizou as tarefas que não havia feito no dia anterior. Finalizou as de hoje.

Não era hoje.

No horário de almoço nenhuma mensagem. O que se repetiu ao longo dos dias. Nenhuma notificação.

Saiu do trabalho às 19h. Estava triste e sozinha. Ao longo do dia não abriu a boca para além de um bom dia não respondido.

Foi para casa. Deixou o banho para um outro dia. Enterrou-se no quarto. Nenhuma mensagem. Não era hoje e nem será amanhã. Chorou um pouco até dormir. Sabia que o dia seguinte seria ainda pior. Resolveu não dar bom dia, quem sabe alguém pudesse perceber sua existência.

Ninguém percebeu.

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