Respirando

Anacrônicas
Feb 25, 2017 · 2 min read

Às vésperas de concluir a graduação — mas concluir mesmo, apresentar TCC e formalizar tudo aquilo que me promove à condição de jornalista (será?) — senti uma necessidade, que começou a urgir, de encontrar algo diferente para fazer por mim. Não no âmbito da qualificação, pois me sinto esgotada academicamente, nem tampouco do esporte, com o qual me considero feliz. Senti que precisava realizar um desejo pessoal — talvez mais simples ou mais complexo que os dois anteriores. Combatendo o juízo de valor às vezes cruel da pós-modernidade, comecei a fazer yoga.

Respira.

Sempre tive uma visão positiva da prática. Até que cheguei à primeira aula e percebi que tinha também um pouco da vaidade. Ao descalçar os chinelos, pisar no chão de madeira, suavemente acariciando meus pés, e compartilhar daquele momento com outras mulheres, percebi que aquilo ia muito além de uma atividade “bacanuda” para se fazer. Ou dos movimentos bonitos que eu via no Instagram. Percebi que não estava ali só pelo contorcionismo. Que seria até profano tirar fotos daquele momento. Ou esperar que alguém visse meu desempenho como uma grande realização do corpo.

Naquele momento, reconheci, no âmago verdadeiro e que tenho desvendado de mim, que estava em busca de uma vivência de espiritualidade. Eu, que ingressei cética na universidade e saí muito mais confusa em relação a crenças. Eu, não religiosa, todavia hoje tampouco ateia. Talvez agnóstica. Eu, que acredito muito em energia, em positividade e vivo desejando “luz” aos caminhos daqueles que se encontram comigo. Eu, sem religião, porém menos cruel com aqueles que se amparam nela.

Senti, naquele momento, que repousava em mim uma busca tranquila, sem desespero, por algo com que eu pudesse me reconectar.

E adorei. Inspirei, expirei.

Pensei no quão bonito era tudo aquilo, no quão simples também. Fui buscar leituras a respeito e, embora tudo seja ainda muito desconhecido e superficial para mim, cheguei à conclusão de que ninguém precisa de yoga ou de graduação para buscar amor, paz, compaixão. Mas este é um belo caminho e pretendo segui-lo com serenidade.

Nos dias seguintes, encantada, percebi como a respiração é uma analogia para tudo na vida. Às vezes inspiramos suavemente, deixando que as coisas aconteçam e sigam sua ordem natural. Noutras, expiramos com desespero, forçando que o ar e as dores nos deixem em detrimento de inspirar algo melhor no próximo fôlego.

Respiração, força, resiliência. Não violentar jamais o corpo, mas tampouco acreditar que ele se limite àquilo. Inspirar, expirar e tentar outra vez. Sempre. Recomeçar. Perdoar.

Talvez não pratique diariamente, entretanto pretendo me cobrar.

Na sexta-feira, fui ao banco e percebi que minha senha demoraria para chegar. Estava sem livro na bolsa para ler, sem Kindle. Este seria um gatilho normal para que eu começasse a arrancar as peles das minhas unhas. Um hábito terrível, mas comum sempre que fico entediada. Em vez disso, resolvi me concentrar e respirar.

Inspirei, expirei. Esperei.

Foi mais tranquilo do que eu esperava. E as peles das unhas voltaram intactas desta vez.

Anacrônicas

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22 anos, comunicadora, jornalista, encantada por literatura, apaixonada por corrida de rua e movimento. Senti que precisava voltar a escrever e recomecei.