Ilustração de Vanessa Beecroft para a edição de janeiro de 2020 da Vogue Itália. Fonte: FFW

Talvez você saiba que a primeira fotografia reconhecida seja de 1826 e que ela tenha sido feita pelo francês Joseph Nicéphore Niépce. Ela precisou de oito horas para ser produzida, um feito que envolveu uma placa de estanho, betume da Judeia e muita exposição solar.

Se fotografar é hoje um gesto que acompanha o nosso ato de ver, ele demorou um certo tempo para ganhar os lares e redações, não só pelo porte e pelas complicações das primeiras câmeras fotográficas, mas também pela relação que as pessoas mantinham com as fotografias e com os conteúdos que consumiam. Uma foto requeria…


Foto: Maria Labanda

Da ponta dos meus dedos

Ao que saliva a minha boca

Conto rachaduras onde faleço em anseios

Tornei-me a bruta casca de uma árvore

Se em meus vincos resido indômita

Vou me engolindo em células secas do que não foi

E nem será

Tenho arfado pelo zunir do vento

Que o tempo é pouco para quem se queima

E as cinzas têm sufocado o pássaro que vive entre meus pulmões

Ainda assim, movo meus galhos dormentes

E me encurvo à vontade das folhas

Às poucas folhas

Porque as chamas também se encolhem em sementes


O perfil da Melted Videos tem 377k de seguidores no Instagram e 50.2k, no Twitter.

Há alguns meses, meu feed do Instagram deixou de ser estrelado por editoras de moda para dar lugar aos posts lo-fi de músicos e outros tipos de criadores independentes. O que eu observava em postagens de marcas como Balenciaga e Jacquemus, contudo, prevaleceu em meu campo visual: uma predileção pelo “feio”, aqui entendido como uma produção propositalmente precária.

Não falo da estética desprovida de referências ou de uma mínima elaboração intelectual dos movimentos de direita. A estética torta das gerações Y e Z é, na verdade, extremamente consciente.


Há pelo menos uma dezena de gritos deslizando entre meus dedos

E a garganta emparafuzou-se com que o que já fui

Já não há espaço para o porvir

Minha pele abriu-se em veios pela aridez do descaso

E o ferro que escorre pelas feridas da terra também passeia vermelho pela minha língua

Eu definho enquanto reduzem minha casa à casca

E são acizentados os amores de quem tem sede

Nos secaram as raízes para que não estendêssemos nossas mãos aos céus

E oramos sós

E soluçamos seco

E bebemos um gole barato pelo desencontro entre a promessa do horizonte e a pequenez do que fizeram de nós

Punho em riste para romper o asfalto

Que eu tenho sangrado um riso para continuar todo santo dia

E esse sangue no piso não é meu

Eu tenho seguido, riso besta, um gole por noite

Esse sangue no piso não é meu


O rosto de Marielle Franco nas passarelas expôs os escombros de uma indústria que precisa ser repensada.

Alexander McQueen. Fonte: PBS.

O SPFW N47 iniciou-se em meio a mais uma edição do Fashion Revolution, movimento iniciado em 2013 após a tragédia do Rana Plaza e que propõe medidas para que a indústria da moda opere de acordo com os valores da sustentabilidade e da ética no trabalho. Se o FashionRev convoca ativistas por meio de roupas viradas pelo avesso, o SPFW N47 parece ter levado a questão um tanto a sério, escancarando os males da indústria da moda pelas entranhas: em uma só edição…


Mikel Muruzabal para Mind Sparkle Mag.

Em algum ponto de sua confusa história, a humanidade decidiu que usaria lenços para acenar em múltiplas ocasiões. E o que seria mais um gesto comezinho da espécie tornou-se um recurso essencial para pequenos instantes dramáticos, graças às misteriosas propriedades da peça que vibrava para receber cavalheiros, acolhia lágrimas e conferia aos braços uma extensão exuberante.

Eu não tinha todas essas abobrinhas em mente quando, há alguns anos, decidi passar no Brechó Brilhantina para encontrar algo um pouco exuberante e feminino. Pretendia disfarçar de vez o nervosismo colegial que me acometia nas mínimas aproximações com um colega de sala. E…


Colagem: Screen Lovers — Eli Craven.

Eu não podia me desfazer em chamas nos teus braços então eu o roubei nas lascas que tirei de ti com uma faca herdada. Tudo começou na noite em que lhe pedi emprestado 4 ou 5 álbuns teus e então mergulhei nas músicas que embalaram seu cansaço, seu choro, sua raiva, seus amores e seus orgasmos. Segui as pegadas de seus tênis sujos. Tive um arrepio ao ver a nova tatuagem em seu antebraço.

Foi guardando esses pedacinhos teus que escondi um choro que ia do útero à garganta quando vi você partir com outras enquanto me lançava olhares furtivos…


Ilustração: Megan Low

O atentado de Suzano nesta quarta-feira (13 de março) foi um retrato do despreparo do jornalismo brasileiro para lidar com a complexidade de um mundo real atravessado pelo virtual.

Entre os anos de 2014 e 2015, recém-formada em jornalismo, eu me deslumbrava com as possibilidades da produção de conteúdo na internet. Tinha um pequeno blog sobre moda e sustentabilidade quando poucos ainda falavam sobre o assunto e passava os dias interagindo com outros produtores de conteúdo independentes para montar novos artigos e divulgá-los “na raça”. Eu sequer tinha um smartphone, mas conseguia organizar alguns editoriais e fazer pequenas resenhas sobre…


Foto: divulgação. Fonte: Scream & Yell.

As luzes de LED iluminavam a varanda da Casa Rosa do Bonfim. Fora um pôr do sol de cores muito amenas, como se o bairro todo segurasse a própria ânsia do que viria. O Bonfim anda em ruínas, mas sua estrutura é forte como o corpo de uma velha benzedeira. E é nesse caminhar bambo que tudo ali vai ganhando vida nova, coisa de quem sabe que a beleza tem veias, veios e pentelhos. O festival Música Quente se ergueu por ali em meio aos rostinhos jovens que aos poucos descobrem a região para além do cemitério e encontram em…


O terninho de Michelle Bolsonaro já disse tudo — ou melhor, disse nada, e vai ficar por isso mesmo.

Kanye West durante a Yeezus Tour, em 2013. Foto: Wetpaint.

Há alguns anos, em relatórios muitíssimo detalhados, os bastiões das tendências têm tentado eleger tons de cores como manifestações políticas dentro da indústria da moda. Em 2016, logo após as marchas feministas que sucederam a eleição de Trump, o Millenial Pink foi o tom escolhido pela juventude que queria retratar seus ideais em pussyhats e composições que contestavam tradições de masculinidade (um salve para a dobradinha Harry Styles e Alessandro Michelle). O vermelho, especialmente em tons monocromáticos, teve a sua vez…

Ana Carolina Rodarte

25 anos, jornalista formada em Comunicação Social pela UFMG. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é o meu coração, mas eu preciso de uma caneta só.

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