Quando o fruto cai longe da árvore: porque família não pode ser o pilar de todo mundo
Quantas vezes você já escutou alguém dizendo que não se pode confiar em ninguém além da sua família? Que você deve dar valor à ela? Quantos textos você já leu sobre colo de mãe, abraço de pai, conselhos familiares, apoio familiar? Pode ser que seja um capricho de Murphy, mas já aconteceu comigo inúmeras vezes. E demorou muito tempo pra que eu internalizasse tudo isso como regra, porque tem suas ressalvas. Talvez eu deva falar sobre as minhas.

Desde a Idade Média, disputas entre membros familiares iam desde o prato de assado até o poder do feudo. Não precisa ser historiador: Game of Thrones, The Tudors e Harry Potter são algumas das obras mais famosas sobre o fato que nem todo mundo admite. Pois é, meu caro. Desde criança a realidade sobre esse conto de fadas que nem Walt Disney engoliu (vide Rei Leão) é jogada na sua cara, e você insiste em dizer que “toda mãe ama o filho”, “irmão é seu melhor amigo do mesmo sangue”, e todas essas coisas. Baita de uma mentira.

Em um breve momento Discovery Channel, diria que o ser humano é proveniente da mesma natureza a qual pertencem pinguins que defendem suas crias com a própria vida e peixes, insetos e mamíferos que se alimentam de seus filhotes. Não é inerente à condição humano o ato de amar pessoas que pertencem à sua família, consanguínea ou não. Inerente à humanidade deveria ser a aceitação de que, volta e meia, um limão nasce de uma macieira. De vez em quando, irmãos não se toleram ou pais não se afeiçoam a seus filhos. Acontece, simplesmente. A psicanálise atribui a canalização de frustrações, a sociedade como anormalidade e eu como realidade. Minha, de algumas das pessoas que mais admiro e de milhões que nem sequer conheço.

Não atrelo a ausência de felicidade familiar a ausência de qualquer felicidade. As pessoas podem fazer sua própria família, e não digo isso como analogia ao casamento ou algo do gênero. As pessoas podem simplesmente se afeiçoar, construir laços e serem respeitadas por pessoas que não possuem o mesmo sobrenome que elas. Aos que vêem em amigos uma segunda via do que chamam de família, talvez eu tenha mesmo uma boa notícia: talvez eles sejam sua família. E aquelas pessoas que te humilham todo dia e que vivem repetindo o quanto você não deveria fazer parte daquele grupo são apenas isso: um grupo. Existem muitos grupos de péssima qualidade no mundo, e você não precisa necessariamente fazer parte de um deles.
A ceia de Natal pode ser feita em outro lugar. Você não é uma prostituta apenas porque se interessou pelo rapaz em uma noite, ao contrário do que sua mãe conservadora te diz. Você não é um marginal porque fez uma tatuagem de tribal no braço, mesmo que seu irmão que serviu ao Exército diga isso todo santo dia. Acho que deu pra entender a lógica, com o perdão pelo uso de estereótipos que se fizeram úteis no momento.
A realidade é que nem eu, nem você nem ninguém precisa ser aceito por ninguém além de nós mesmos. Inclusive por nossa família. Qualquer pessoa no mundo tem o direito de se assumir, se decidir e se mostrar, e se o grupo em que ela nasceu não se sentir satisfeito com isso é porque é o grupo errado. Ela vai achar o dela, ou não achar e seguir feliz sozinha e autêntica pelo resto da vida; muito melhor e mais libertador do que vestir um personagem e colocar a máscara de ideal. Isso mata por dentro, mata aos poucos e doloridamente e nenhum ser humano no mundo merece viver assim.
Ninguém tem obrigação de ritualizar-se para se integrar a qualquer lugar, grupo ou sociedade. Da mesma forma, ninguém tem obrigação de aceitar tudo — a única obrigação inerente ao bom caráter é de respeitar e conviver. Quando essa última obrigação se torna um peso para o que a sociedade chama de “família”, é hora de encher a boca pra cantar “eu sou a ovelha negra da família!”