POR MAIS AUTENTICIDADE NAS FESTAS INFANTIS.

É maluco pensar que desde o momento em que chegamos ao mundo não experimentamos por mais do que dois anos a sensação de liberdade pura. Dois anos de liberdade para tantas outras décadas com amarras. Não digo liberdade no sentido de baderna, de falta de limites e sim de ausência de travas, medos, vergonhas, preconceitos ou julgamentos que carregamos de quem está próximo.

Lembro do pediatra da minha filha falando sobre livre demanda de leite e simpatizei com essa ideia. A sensação, mesmo que inconsciente, de dar liberdade a ela me fez um bem danado mesmo que isso se restringisse a dar leite a ela sempre que chorasse. Em um movimento oposto me veio a lembrança de tentar de toda forma ter as meninas através de parto normal, o que não foi possível, e sentir uma enorme frustração (só na primeira gravidez) por não ter sido capaz. Achei que estava presa às vontades do médico e sem liberdade de escolha. Hoje entendo que ele fez o melhor, e que eu estava mais preocupada com o rótulo de incompetente e com o que os outros diriam do que com o bem estar do bebê e com o meu também.

Bebê parece livre mesmo. Eles choram na hora que querem e não se calam de fizermos um psiu. Na maior parte das vezes escolhem quando irão acordar, fazem xixi quando a gente está trocando. Quando eles arrotam depois de mamar nós comemoramos o êxito, pois significa que os alimentamos bem. Ao crescer um pouco, quando ainda são crianças, soltam pum e nós achamos engraçadinho e fofo, mas aí começamos a dizer que arrotar é feio. Não passa muito tempo para explicarmos que pum é no banheiro ou a brincar dizendo que eles são fedidos, o que lá no fundo quer dizer que não é pra eles soltarem onde e quando quiserem. Começa aí a fase de poda de liberdade.

Lá pelos três anos as crianças começam também a expressar suas vontades e preferências. É uma loucura pensar que provavelmente para cada tentativa de livre expressão surge de algum adulto uma advertência. Deve ser uma confusão constante tentar fazer e ouvir não, fazer de outro jeito e não de novo. Não sou a favor de criança crescer sem limites, mas tenho convicção de que nós adultos não temos limites na quantidade de nãos que falamos.

Tem não que soltamos só para facilitar a nossa vida. Não vai na grama é garantia de que o sapato não vai sujar. Não corre tão rápido na calçada nos dá a segurança de que eles não vai cair, não toma sorvete pra não tossir, não fala alto pra não acordar a sua irmã. Não, não, não.

Minha filha que tem três anos acorda e escolhe a roupa que quer usar. Na maioria dos dias ela combina estampas incompatíveis ao meu julgamento, usa shorts com casaco de frio, sandália com a meia esticada até o joelho, coloca vestido e uma calça jeans por baixo, faz maria chiquinha de um lado só. Quando ela chega na escola eu ficava pensando que devem me achar doida ou pensar que dou liberdade demais. Eu sofria e achava justificativas para explicar por que a Nina foi assim para a escola. Era tão perturbador para mim ficar preocupada com o que os outros achavam que um dia optei por não sofrer e tentar ver as coisas sob uma nova perspectiva. Foi aí que comecei a curtir cada detalhe divertido dos figurinos da Nina. Acho o máximo ela poder se expressar livremente através das roupinhas.

Enquanto soltamos não para as crianças, falamos compulsivamente sim para nós. Saímos e compramos as roupas que achamos que ficam bonitas nelas, escolhemos um dos dois sabores de sorvete em nome deles e assim por diante. Quando chega o momento da festa de aniversário as chances de perder a razão são enormes. Que atire a primeira pedra quem nunca exagerou nos enfeites e nas comidinhas sob a justificativa que o filho pediu ou que não pode faltar? Balela! Nos damos o prazer de exagerar e a desculpa cai sobre os filhos. Pensando que tudo tem que sair perfeito, inclusive para as fotos que serão postadas e ficarão no álbum, tentamos dar uma influenciada também no tema e na decoração.

Acho que os convites deveriam mudar e ir em nome dos pais junto com o da criança. A festa é de todos. Quem mais se emociona com tantos detalhes são os pais. Provavelmente se fizéssemos uma enquete com as crianças elas diriam que metade do que foi feito seria suficiente.

Hoje li a notícia sobre uma menina que pediu aos seus pais que o tema do aniversário dela fosse cocô. Os pais esperaram meses para ver se ela mudaria de ideia, mas isso não aconteceu. Eles embarcaram nessa e fizeram a festa com esse tema: convite, roupa da menina e da mãe, bolo, cartazes e biscoitinhos. Que bacana ver os pais realizarem os desejos da filha! Que exemplo a ser seguido. Esta autenticidade inerente às crianças é linda de se ver!

Meu texto ia parar por aqui apenas com este convite à reflexão do quanto realizamos os nossos sonhos através das crianças e o quanto podamos a liberdade por ser mais conveniente para nós. Ao passar mais uma vez os olhos sobre a matéria duas coisas chamaram a atenção: o título é "Menina EXIGE que tema da festa.." Exige? Desde quando uma criança pequena exige algo. A segunda coisa é que as fotos postadas na matéria só mostram os pais e a menina. Cadê a turma? Só porque o tema era cocô acharam que o bolo e a festa seriam também um cocô e ninguém foi?

A mídia colabora inconscientemente para a formação das nossas opiniões, e dos preconceitos também. Quis aqui refletir sobre liberdade mas cabe também uma reflexão sobre a qualidade do que chega até nós. A matéria poderia ser alegre e divertida, relatando a felicidade da menina e a satisfação dos pais ao realizarem sua maior vontade. Ao invés disso, na minha percepção, ficou a imagem de uma menina fora dos padrões, que pediu algo engraçado e esdrúxulo, e que virou o patinho feio. Que cocô…

: De repente, Quando começamos a ter mais consciência aprendemos logo com os "nãos". Surgem as advertências com uma frequência super alta: não pisa aí, não coloca isso na boca, dá tchau pra sua avó, fala obrigada para fulano.