Tudo que eu quero gritar sobre o quanto o suicídio de Chester Bennington me atingiu

Ana de Oliveira
Jul 22, 2017 · 4 min read

Como todos sabem, Chester Bennington morreu nesta quinta-feira, dia 20, e segundo o médico legista, tinha sinais de enforcamento. Chester tirou a própria vida.

Eu não consigo parar de pensar no quanto isto me atingiu. E não é por ser fã dele. É justamente por ter tido quase o mesmo fim que ele. Eu nunca gostei de falar sobre isto de forma tão aberta, mas neste momento sinto que estou pronta para desabafar tudo que eu tenho a dizer sobre o suicídio de Chester. E talvez, quem sabe, eu possa ajudar alguém que está na mesma situação.

Eu sempre amei a minha vida. Sempre amei viver, e sempre fui grata por viver imensas coisas incríveis, e ter oportunidades únicas, que só a sorte ou o destino poderiam explicá-las. Eu não sei dizer quando foi que tudo começou a ficar em escala de cinza para mim.

Mas aconteceu. O meu gosto pela vida se foi, e me senti encurralada. A minha claustrofobia passou a atingir, também, o meu psicológico. Fiquei sufocada por tanta coisa que me acontecia ao mesmo tempo. A faculdade que eu amava, mas que me deixava consideravelmente desconfortável; a perda da capacidade de lidar com as pessoas, e para uma pessoa que foi muito sociável, é difícil suportar; a mudança para um novo país, e a sensação de perder o meu talento, que é escrever, justamente por estar aprendendo uma nova língua; as responsabilidades que desabaram; as decepções de pessoas importantes, as demonstrações de falta de consideração; a sensação de perder algumas amizades; a sensação de ser humilhada por ser traída por uma pessoa importante; a sensação de abandono pela impressão de que ninguém podia me entender; a sensação de estar quebrada e me dizerem que “eu sinto demais” e “deveria sentir menos” ou que “já tinha passado da hora de superar tal coisa”; a sensação por estar mudando de curso aos 20 anos, o que para o mundo, que cobra tanto dos jovens, é um absurdo, pois “estou velha”.

Eu poderia escrever um texto só com as razões que me levaram abaixo (porque há mais delas). De uma vez, tudo caiu sobre mim, e desejei morrer. Não para que os meus problemas, de repente sem solução, se resolvessem. Eu não vi solução. Com isso, eu só quis parar de sentir toda a dor que parecia aumentar dia após dia.

Eu não vi luz. Chester também não viu. Diferente de mim, Chester “aparentemente” tinha uma boa vida. Tinha família, filhos, uma carreira invejável, uma boa reputação, uma banda bem boa, e dinheiro. Isto faz com que algumas pessoas questionem a razão da sua morte. E isto também me faz questionar quem podia garantir que a vida de Chester era perfeita.

Chester também tinha os seus monstros. Foi abusado sexualmente na infância, e esse é tipo de coisa que percebo que nunca saiu dele, ficou lá, um trauma tatuado. Tinha problemas com álcool e drogas. Tinha depressão.

Não procurei ajuda (ainda), mas tive alguns sintomas da depressão, e seja lá o que se passou comigo, foi o ponto mais obscuro da minha vida. Eu, alguém que é bom com as palavras, não sei explicar o que eu senti e o que eu vivi. Mas entendo o Chester.

Suicídio quer dizer, obviamente, fim da linha. Porra, quer dizer tirar a própria vida. A vida supostamente deveria o nosso maior bem, e há pessoas tirando-a de si. E o que acontece é a culpabilização dessas pessoas, como se acordássemos num lindo dia de sol e disséssemos “acho que hoje eu quero morrer”.

Outra coisa que observei, com certo embrulho no estômago, foi como as pessoas tendem a amenizar a sua morte só por ter sido suicídio. Acidente de carro, assassinato e algumas (apenas) doenças (porque depressão não conta ~lê-se na ironia~) parecem ser os únicos motivos dignos para se dizer “que tragédia”. O Chester? Ele morreu porque quis. É triste, mas foi a escolha dele, o que é bem ingrato, né, porque há tanta gente querendo viver, e ele se resolveu enforcar.

Suicídio é, também, uma tragédia. Chester tinha uma doença, e embora as pessoas não a considerem como tal, continua sendo doença. Depressão é doença e mata. A sociedade, que culpabiliza a vítima, que faz piadas com esse tipo de coisa, e que diz-nos que tudo não passa duma falta dum ser divino, também nos ajuda a dar mais um passo para tirar a própria vida. Como alguém consegue ajuda se, ao pedi-la, é julgado e condenado?

No fim das contas, superei cada mágoa e obstáculo (continuo na luta), e aprendi o quanto a nossa saúde mental, que tanto negligenciamos, é importante. Me magoa saber que este não foi o caso de Chester. Me magoa saber que ele pode ter se sentido tão sozinho mesmo rodeado de pessoas (solidão tem vários conceitos e vivências). Me magoa saber que, provavelmente, Chester sentiu que ninguém poderia ajudá-lo (você consegue imaginar o quanto desesperador é?). Me magoa saber que Chester está morto, e que isto provoca risos e piadas. Me magoa saber que ele não é o único, e que há pessoas que se matam por não conseguirem ajuda, ou por serem ainda mais pisadas ao procurá-la. Me magoa lembrar que, por experiência, entendo não só Chester Bennington, mas também tantas e tantas pessoas que pensam, diariamente, em se matar.

Para mim, hoje está tudo bem. Agradeço por estar viva, e pelas pessoas que me salvaram. Pela ajuda que nunca conseguirei agradecer suficientemente. Porém, a luta continua. Suicídio ainda é visto como uma forma de apenas chamar atenção, como se fosse hobbie. Escrever este texto é triste, mas é reconfortante saber que poderei ajudar pessoas, e talvez iniciar um debate (humanizado) sobre depressão e suicídio.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade