Ela, finita.

Ana Elisa de Braga
Sep 4, 2018 · 2 min read
Fonte: Visual Hunt

Eu fitava seus olhos tão verdes como sempre o fiz. Eram os mesmos olhos, era o mesmo verde, mas ela já não era mais a mesma. Não eram só as rugas que haviam aumentado. Ela tinha diminuído, ainda estava lá, porém tão pequena que mal se enxergava. Eu sabia que chegaria o dia que meu nome não lhe viria mais aos lábios, muito menos à memória. Sabia que a nossa história só eu lembraria e que, pra ela, eu seria uma completa estranha. E o dia chegara.

Eu já não sabia mais o que nós éramos, eu conhecera aquela mulher no passado. Ela me conhecia mesmo antes de mim mesma. Por tanto tempo. Mas hoje não mais. Hoje eu só conhecia o que já foi e ela não conhecia mais nada. Nem passado, nem presente. Só o instante.

Se eu pudesse voltar ao que era, não teria poupado palavra nenhuma. Não teria poupado nada, principalmente o tempo. Ah o tempo! Ele se torna escasso e não existe como poupar. Não existe como deixar ela ali, sem que ele a consuma. Me consuma.

No espelho, vejo as feições dela em mim, ainda sem nenhuma ruga. Vejo a alma dela em mim, a força de uma gigante de um metro e sessenta. Mas não é ela. Não sou eu. Somos nós duas e, ao mesmo tempo, não é ninguém.

Fito-a de novo, os olhos não me reconhecem. Ela pergunta duas, três, dez vezes quem eu sou. Ao que respondo, ela já não lembra mais. Ela não sabe mais. Eu lembro, ainda sei. Mas é suficiente? Eu saber por nós duas não torna nada mais fácil. Eu amar por mim e por ela não é o bastante. Ela ainda sabe amar? Ela ainda sabe quem é ela? E o que ela foi?

Tudo que foi, simplesmente foi. E ninguém mais viu, só ela. E ela já não sabe mais. Não lembra mais. Não fala mais. O que foi, nunca mais vai ser. Assim como ela. Assim como eu. Como nós. Eu a vejo ali, mas sinto saudade. Sinto saudade não do corpo, que continua ali, mas da essência que, hoje, eu já não encontro. E vai ser sempre assim. A imagem vai ficar, mas é só. E o que é a imagem sozinha? Eu a olho e percebo. Nada. Assim como a minha pra ela. Não significa mais nada.

Logo a carne também vai embora. E aí então, o que vai me fazer falta? O que já falta. Ela. Que já não mora mais naquele corpo tão familiar. Que não existe mais. Que vive só dentro de mim. E que talvez um dia também suma pra nunca mais retornar.

Encho-me desde sempre da palavra escrita. Ora das que eu leio, ora das que eu escrevo. Encontrei, aqui, o lugar para, enfim, transbordar.

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