Breves considerações sobre a rede de imagens.

1. Mesmo que o Instagram tenha diminuído a nossa aderência a palavra, sigo insistindo no verbo. Seguem aqui pequenas considerações sobre a rede de imagens.
2. Somos bichos do social e a necessidade de compartilhar é tanta que o Instagram nos ensinou a ver graça em pentelhos caídos no chão, bem como no acaso da luz perfeita que por vezes se atravessa.
3. Porque o Instagram forja formas de ver e ensina a fotografar, mas também a desver do mundo.
4. Bendita (ou maldita) seja a necessidade de compartilhar.
5. Outro dia uma amiga fazia uma trilha num povoado romeno e achou um urso na trilha. Louvei ao céus o fato dela não ter rede social alguma.
6. Na condição de fotógrafo profissional, o Instagram demanda uma identidade visual castradora (Como se a gente não pudesse sair muito fora da nossa própria coerência forjada). Nem toda imagem cabe nos ditames de uma paleta, e eu ainda me pergunto como alinhar imagem de protesto com minimalismo zen. O instagram pode se resumir a imagem das imagens, em uma lógica na qual a moldura equivale ao quadro todo.
7. Entre prós e contras, contudo, ter uma identidade visual pode ser uma coisa boa, porque só assim podemos saber dos nossos percursos, o que há de comum e o que há de sui generis nos nossos modos de ver. O fato é que fotografar se tornou um ato banal, mas desprovido de toda inocência.
8. Instastories é o Samsara manifesto. Já teve a oportunidade de observar atentamente alguém rolando a barra do instagram? Tem coisas que só fazem sentido na nossa cabeça, porque na tela dos outros é lesão por esforço repetitivo.
9. Os likes são os deuses da contemporaneidade aos quais a gente se devota.
10. Se as imagens nos importam, é preciso que se discipline uma ressaca virtual. A rede das imagens nos poupa do chamado “textão”, e a mim não resta dúvida de que a nossa capacidade de absorção anda bastante afetada.
11. As imagens da palavra são cada vez mais pontuadas, e quem quer que tenha tentado reler Grande Sertão Veredas deve ter se deparado com um desafio imenso. Isso porque as redes vem moldando a nossa capacidade cognitiva. Tatear o mundo nunca foi coisa dada.
12. Portanto, cuidado. Há que ser cuidadoso com a imagem, para que ela própria não desgrace a palavra ou seja vício de partilhar a própria falta.
13. Beleza é tudo o que não se cabe dentro, mas o gosto de ruminar deve preceder o impulso do vômito. Sensibilidade também é coisa que se eduque.