A mulher do cobrador

A mulher do cobrador trabalha perto do Colégio da Polícia Militar, na Redenção. Larga do serviço às 15h30 e sobe num T5 abarrotado. Senta ao lado da catraca. Ele mal olha pra ela. Está trabalhando, concentrado em dar troco aos poucos que pagam em dinheiro.

Ela mira o chão, cutuca as cutículas e mexe na sacola plástica. A patroa lhe deu um blusão que deve servir no seu marido. Será que ele vai gostar? Ela pensa no filho doente em casa, com bronquite, na janta que terá que fazer e na sua melancolia.

No momento que ele está desocupado, ela puxa uma conversa. Ele olha sério pra ela e não responde. Parece ter vergonha de sua esposa. Ela se retrai e noto seus olhos úmidos. Sei que são casados porque usam uma aliança igual. Já os encontrei muitas vezes nesse trajeto, que felizmente não faço mais. Eu olhava, disfarçava, escutava e tentava criar roteiros diferentes que tornassem a vida daquela mulher mais alegre. Nunca consegui. Sempre desci do coletivo com um nó na garganta.

Like what you read? Give Ana Emília Cardoso a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.